sábado, 1 de outubro de 2011

A morte


(escrita em 2000 e baseada em fatos reais; hoje folclóricos)

Eu vi a morte de minha avó, um clima tenso. Minha mãe chorando, minha tia, uma prima mais velha, a empregada, como se ninguém no mundo morresse. Como se fossemos imortais e só minha avó que não. Bem típico dos ocidentais. A morte como algo que não deveria ocorrer. Santo Deus, George Harrison fez uma música para se encontrar com o criador e curtiu numa boa sua vida. Quem acha que a morte não virá, é melhor pensar e repensar o fato.

Quando fiquei mais velho, vivi a morte de meu pai, de meus tios e de uma série de pessoas ligadas a minha vida. Às vezes ficava pensando na morte como algo cruel, que levava o doce sabor do viver. Uma armadilha inevitável. Viver era sobre tudo, fugir da morte. Quando me encontrava extremamente feliz, olhava para o lado, para trás, achava que a morte estava chegando. Pois sua aparição sempre fora numa hora feliz, em momentos de beleza.

A notícia da morte de meu pai chegou no meio de uma tarde ensolarada de outubro. Minha mãe com uma camisa amarela nas mãos se preparava para desenhar o número 10, seria minha primeira camisa de futebol com número. Eu tinha 12 anos. Ao fim daquela tarde iria estreá-la no campinho, no meio dos amigos. Sentia uma felicidade extrema, uma ansiedade saudável, maravilhosa. Mas não deu, bateram à porta e levaram minha mãe. Levaram-na ao hospital. Meu pai estava indo, subindo a escada para o céu, após ter o corpo batido várias vezes dentro de um carro que capou diversas vezes. Hemorragia interna. Perdi a camisa dez da seleção.

O tempo foi passando eu fui digerindo a morte. A gente vai ficando mais duro e até começa a dar risada. Dessa maneira pude prosseguir e cheguei até a idade adulta. Meus filhos nasceram e hoje já não tenho medo da morte. Acho que não. Sei que ela virá, mas se der para negociar, vamos enrolando. Eu não olho pra morte e ela não me vê.

Mas o que queria contar era outra coisa. Era sobre humor e morte. Quem faz os outros rirem, deve ir para o céu. Por isso, com certeza, dois primos mais velhos irão para o céu. Sabe o que eles fizeram certa vez? Não? Então ouça:

Era uma noite de sexta feira e os dois estavam num boteco chamado Senadinho. Era um lugar especial, um bar para senadores, uma espécie de sala de reunião de bebuns de primeira categoria.

O dono do bar lavava os copos silenciosamente, enquanto a dupla olhava o nada e conversava dois assuntos de forma simultânea. E se entendiam.

A certa hora do processo, um infeliz, que vinha em sua bicicleta, parou diante do bar, visualizou a dupla em suas respectivas cadeiras e foi logo dizendo, sem nenhuma preocupação.

—Vocês sabem quem morreu?

A dupla parou com os copos e olhou para o sujeito que trazia a notícia.

—Não!!— responderam.

Era um amigo da dupla, estava mal já alguns meses. O típico caso em que a palavra, “descansou”, aparece em meio à explicação da morte. Mas para dois bêbados não é bem assim. A própria ciência já diz que o álcool potencializa tudo. E com eles não foi diferente.

—PÁRA TUDO!! PÁRA TUDO!!— como se tudo já não estivesse parado àquela hora da madrugada. Em suas mentes o bar estava cheio. Pessoas em outras mesas poderiam estar bebendo e era preciso parar e por muitas vezes.

—PÁRA TUDO!!

O mensageiro deu a notícia e se foi, sem nunca imaginar o quê suas palavras causariam. Os dois ficaram em debate-monólogo. Cada um com o seu. Mas chegaram a uma conclusão: iriam ao velório. — às vezes um acordo entre professores nunca sai e vira uma eterna ladainha, mas entre esses dois bêbados a coisa foi rápida. Pagaram a conta e saíram. Seria o último adeus ao amigo que havia partido.

Chegaram à porta da casa e entraram. Eram conhecidos da família e foram abraçando todo mundo, que não perceberam, a princípio, o grau etílico da dupla.

Perto do caixão estava a mãe, que claro, conhecia os amigos de infância do filho. Lágrimas para um lado, lágrimas para outro e pronto, o assunto foi acabando. Quando isso ocorre, é hora de acender um cigarro.

O mais velho ainda fumava e enfiou a mão no bolso. Com uma agilidade incrível, conseguiu tirar um cigarro no formato de um clips e isso após uns dez minutos. Porém achar o fogo, o isqueiro, seria outra odisséia; talvez até desse cãibra no braço e então ele fez o óbvio: foi em direção as chamas dos castiçais que estavam na cabeceira do falecido.

Quando se está bêbado as paredes parecem de gelatina e claro, se mexem. E foi tal fenômeno que tirou o centro gravitacional daquele meu primo, que foi ao chão com castiçal e tudo. Fez-se mais silêncio ainda no velório, um espanto pela catástrofe tão cômica, não fosse a dor e o corpo do ‘Homem’ em seu fim eterno. As velas rolaram e a conseqüência foi lógica: foram expulsos do velório. E sem que o cigarro fosse aceso.

Acho que a solução para problemas como esses são simples. Basta um cara na porta dos velórios com o bafômetro na mão. ISO 14000 de funerárias, para quem não quer bebuns no velório. Quando aparecer um sujeito meio suspeito, é só conferir o grau alcoólico e pronto, tudo bem. Só que não quero isso para mim.

Quero que amigos apareçam com garrafas. Só assim saberei que valeu a pena ter vivido a vida. Deve ser duro estar ali, morto, enquanto alguém chega com um papel na mão, tal como um troféu póstumo, e com os olhos cheios d’ água, vai mostrando aos outros enquanto diz:

— Este foi o relatório mais importante que ele preencheu!!

— Ohhhhh!!! — responde a massa vestida de negro.

Seria uma vergonha. Pense no formulário que mais lhe atravanca o viver. Vai! Pára com isso, vai!

Saúde!! Tim tim!!

5 comentários:

  1. Tim-tim, e que cantem...

    I geeet high wittth a little heeelp frooom my frieeends...

    A morte, " o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre." Ariano Suassuna.

    ResponderExcluir
  2. de macartney a ariano e o espetáculo da morte ...


    alguns são mágicos potiguás e dão o drible da vaca na morte e jogam o fim do jogo pra lá da cumieira. eu comnheço um...

    ResponderExcluir
  3. Ah, e os irmãos marx... Bela lembrança.

    ResponderExcluir
  4. Velório sem cachaça não é velório.Velório na roça
    só é bom por causa disso.
    Enterrei meu pai a menos
    de quinze dias.Vi meu pai morrer no hospital e quando fui para o velório de madrugada já fui bem mamado...no cemitério tem um bar que fica aberto a noite toda mas só vende água mineral e refrigerantes.
    Já enterrei meu pai minha mãe e três bons amigos.Não tenho nenhuma pressa em subir...
    Só espero que quando chegar a minha hora.Que algum amigo se lembre de tomar umas em minha homenagem,de colocar a bandeira do Galo sobre o caixão de cantar o Hino do Galo e cantar a música: Naquela Mesa...no mais tudo bem

    ResponderExcluir
  5. Eu não tenho medo da morte.Tenho medo de ficar velho senil...
    Não sei se passarei a eternidade com o capetão tomando minha Brahma gelada cercado de belas mulheres.Enquanto os crentes trabalham...ou ao lado de Deus tomando puro malte escocês e cercado
    de mulheres feias.

    ResponderExcluir