segunda-feira, 6 de junho de 2011

O mito da Criação


Adão e Eva

É claro que os judeus não acreditam no mito de Adão e Eva. Não, eu não errei, é sim um mito judaico, usado pelos cristãos, impresso no Antigo Testamento. Ou melhor: os cristãos chamam o Torá, um dos livros sagrados dos judeus, de Antigo Testamento. Não sei como ficou a questão legal dos direitos autorais, pois foi o primeiro ‘download’ que se tem notícia: os cristãos baixaram pra si o Torá e trocaram-lhe o nome. No começo do cristianismo, os cristãos podem ser entendidos como uma espécie de MST: Movimento dos Sem Testamento. Como Jesus era judeu, seus seguidores, séculos depois, ‘ocuparam’ o Torá e disseram ao mundo que aquilo era cristão.

Mas não é isso que quero dizer nesta crônica. O mito de Adão e Eva é um dos mais belos, desde que seja entendido como mito. Claro que a humanidade não nasceu de Caím, único filho homem do casal primordial que sobrou. Pra quem não se lembra, Caím matou Abel e todos não foram felizes para sempre. Quem é dado a leituras do Antigo Testamento, digo o Torá, sabe que há uma emenda no mito: no rodapé dá página onde Deus castiga Caím, fica escrito que ele vai para uma terra distante, onde há outros habitantes. Por isso é um mito, porque foi escrito por humanos e precisa de uma emenda em função de sua irracionalidade. Um ser perfeito criaria um mito falho?

Responda você, caro leitor: um casal branco, sim Adão e Eva eram brancos, pois os judeus são brancos, daria luz a toda diversidade étnica humana? Negros, amarelos, vermelhos, brancos, cinzas, todas nasceram do ventre de Caím? Claro que não. Mas em se tratando de fé, não há discussão.

Porém, por um minuto, vamos imaginar que os criacionistas, com os pés bem plantados numa Terra plana, pois para o antigo testamento a Terra é plana e não esférica, tenham razão: toda a humanidade nasceu do ventre de um homem, que seria Caím. É mais do que urgente avisar aos homofóbicos que, homossexuais não só podem se casar, como também podem dar a luz. O deputado Jair Bolsonaro, que anda a crucificar gays a toque de caixa, digo moralmente, e em nome de Deus, precisa ser avisado que está a ofender a ‘lógica’ do mito da criação: se homens podem dar a luz, como Caím, logo podem se casar também; ficar contra isso é crime. Ei, não fique bravo comigo, é o que está no Antigo Testamento! Se todos descendemos de Caím, homens podem ter bebês.

Comédias a parte, clamo a todos os céus e deuses que os homens dessa Terra, esférica a meu ver, possam ler Charles Darwin e entender o processo da evolução das espécies. Pra quem não sabe, a Igreja Católica é evolucionista-darwinista, entende em sua doutrina que a própria evolução é divina, uma vontade de um criador que, se é perfeito, criaria coisas perfeitas ao longo de um processo de bilhões de anos. E no frigir dos ovos, somos a platéia para admirar e proteger a ‘natureza’ em que estamos imersos. Pena que a destruímos em nome de um capitalismo nada divino, diga-se de passagem.

Se você ainda tem dúvidas sobre a Evolução das Espécies, na hora em que você for tomar banho, perdoe a invasão de sua privacidade, caro leitor, olhe para seus pés no chão, sustentando seu corpo ereto, — espero que você tome banho sem sapatos —, você irá ver uma coisa sagrada: um primata que evoluiu e que pisa o chão da Terra com o corpo ereto; sim, somos animais, e o formato de nossos pés, mãos e membros são os de um primata; nós evoluímos. Animais multicelulares que morrem e adubam a terra e que criam as mais belas histórias ficcionais que se tem notícia, entre elas, Adão e Eva.