quarta-feira, 21 de maio de 2014

Uma noite na Ópera

Uma Noite na Ópera é o título de um filme dos Irmãos Marx, de 1935. Um deboche ao status quo que, ao se apoderar da música, a transformara numa mercadoria descartável, quase que totalmente desvinculada da transcendência, princípio essencial dessa arte. É na execução de uma obra musical que vamos além de nós mesmos e podemos entender nossa tragédia, o papel dos deuses, o significado dos mitos e sem necessidade de texto algum; somente os sons organizados apolineamente para nosso deleite em estado dionisíaco: o vinho de Dioníso e a matemática de Apolo prontos a nos servir.
Conta a Mitologia Grega que o deus Dioníso tinha um seguidor, Sileno, que, quando em estado de embriaguez profunda, produzia vislumbres e até mesmo profecias belas e assustadoras. Desvendava a perecível condição humana através das sensações causadas pelas artes, sobretudo da música. Sileno, dessa forma, foi aprisionado pelo Rei Midas e, sob tortura, foi obrigado a revelar o trágico segredo da humanidade, o qual Sileno havia aprendido com Dioníso: que o melhor para a humanidade era não ter nascido, ser o nada e não ter conhecido a existência.
É nesse espaço em que se sente o trágico, mas não se é possível descrever o motivo pelo qual teria sido melhor não ter existido, que a humanidade se entrega à música e como não poderia ser de outra maneira, com lágrimas nos olhos. Pois quando se depara com a própria imagem perecível, entregue à ferrugem do tempo e à impotência diante do desenrolar da própria história, é que a humanidade entende a si mesmo e de maneira inegável.
Não há ideologia, religião ou riqueza que possa substituir a transcendência causada pela música, ou mesmo o elevar-se humano em deleite por si mesmo, mas sem ser masturbatório. Só a música pode explicar porque conhecemos pessoas quando já é tarde demais, à hora em que o pó já está nos chamando para nos juntarmos a ele; ou quando não podemos explicar o romance da juventude que não deu certo; menos ainda porque temos que aturar a imbecilidade e sorrir de piadas sem graça para agradar a quem tem autoridade sobre nós. Isso é a substância da música.
Além da Mitologia Grega, amo a Mitologia Judaica, que diz em suas histórias que o mundo, às vezes, é tomado por capangas de Amosdeu, pequenos diabretes que saem à caça de espíritos supérfluos que se deleitam com a própria imagem no espelho e se regozijam com o vazio da mente; esses são os futuros habitantes do inferno.
E em tempos ditos pós-modernos, esses candidatos à condenação estão, mais do que nunca, à solta: se contentam com o consumo de bobagens, mantêm o cabelo alisado e/ou pintado, usam roupa de grife, escutam funks cariocas, ‘sertanjo universotários’, pagodes, the voices, música cristã carismática e excrementos mais. O Inferno é o reino dos medíocres.
Por isso entendo claramente a cena do filme dos Irmãos Marx, Uma noite na Ópera, quando Groucho Marx chega de carruagem à porta do teatro onde está ocorrendo uma Ópera. Antes de descer, ele pergunta ao porteiro do teatro se ‘espetáculo’ já acabou. O porteiro responde que não. Então ele bate nos ombros do cocheiro e diz: “Dê mais uma volta no quarteirão!”.
Os quarteirões de Nova York são grandes, muito grandes. Leva tempo contorná-los. Cronos e a distância permitem que Groucho seja abençoado pelo silêncio, pelo menos no filme. É que sua carruagem sai de cena, mas a câmera, em contrapartida, leva o espectador pra dentro do teatro, pra primeira fila onde a idiotice é encenada.
       Melhor parar por aqui. Vou abrir minha garrafa de vinho e ouvir The dark side of the moon, do Pink Floyd; depois vou ouvir “Uma noite na ópera”, do Queen. Isso sim, é um Belo horror.






Melhor parar por aqui. Vou abrir minha garrafa de vinho e ouvir The dark side of the moon, do Pink Floyd; depois vou ouvir “Uma noite na ópera”, do Queen. Isso sim é um Belo horror.

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