quarta-feira, 11 de junho de 2014

Jonas, o uísque e o Espírito Santo



Jonas dizia a todos no boteco que havia sido engolido por uma baleia. Conhecera as vísceras da morte, mas estava ali, forte, capaz de segurar o copo de cachaça e agradecer ao Senhor pela dádiva. Ele, que nunca contribuíra para nada de útil, pelo menos pela ótica do capitalismo, fora agraciado com um salvamento espetacular, a baleia o havia cuspido na praia, um pau d’água doutorado nas diferentes águas-ardentes do mundo. Mas o amor é assim: gratuito, não vê cor, cheiro ou índole. Apenas ama.
Sempre que contava essa história, Jonas se emocionava. No auge do porre, erguia seu Santo Graal, a mais amarela das canas, e berrava uma mistura de canções em glossolalia, que é uma linguagem pessoal. O boteco era um delírio. Jonas cantava aos céus e à baleia que havia rejeitado sua carne. Vivo em função da rejeição. Eis as linhas tortas do Senhor.
Jonas era sempre bem-vindo no boteco, pois sua presença aumentava o consumo dos fregueses, a alegria percorria a alma daquela confraria etílica e tome brinde. Mas um dia, um vizinho do bar, um fanático religioso, que constantemente parava às portas do boteco para a tradicional excomunhão daquele bando de pecadores, se encantou com Jonas cantando sua glossolalia multi-idiomas. Sentiu um arrepio, pois aquele homem ‘cantava em línguas’. Era um milagre. O Espírito Santo frequentava aquele boteco. Dessa forma o homem entrou em contato com o movimento carismático, que até programa de TV tinha, e anunciou o dom de Jonas.
Vieram buscá-lo, tal como fazem com jogadores de futebol da várzea, que logo assinam contratos com grandes equipes. Cortaram o cabelo de Jonas, deram-lhe um banho, passaram perfume e foram gravar um programa piloto. Nunca imaginei que o Espírito Santo pudesse identificar a hora certa em baixar na Terra. Dessa forma, o programa piloto ficou sem Espírito Santo, porque Jonas não conseguiu cantar em línguas. Algo estava errado.    
O movimento carismático era bem poderoso, com um backstage à altura de qualquer astro do cinema e da música pop. Nesse ambiente de maquiagem, luxo, vaidade, traição, ganância e falsidade, Jonas encontrou uma garrafa de uísque e bebeu no gargalo. Em segundos liberou sua glossolalia, e com os braços erguidos e uma voz que ecoava aos céus, assombrou a todos. O backstage era um delírio só. Arrastaram-no para diante da plateia de centenas de pessoas, além dos milhares que viam pela TV. As doações foram estratosféricas.
Jonas se tornou um ídolo dos carismáticos. Casou-se, teve filhos, uma amante em Roma, e passou a comprar tudo que o dinheiro das doações pode comprar. Tornou-se quase que uma Lady Gaga. Mas um dia, num avião, olhou pra poltrona ao lado e viu Jesus. Assustado, Jonas pensou que era chegada a hora de sua morte. Pelo contrário, Jesus olhou para o cantor e lhe disse:
- Eu quis ver com meus próprios olhos. Jonas, da barriga da baleia, aos dentes de Satã. Quanta ironia meu irmão, quanta ironia!
Jonas, assustado, perguntou ao Rabi:
- O Senhor quer que eu pare de beber?
- Não, que pare de cantar em línguas pra ganhar dinheiro!   
Foi a primeira e única vez que viram Jesus relacionado a algo do movimento carismático. 
Mistérios! 

Um comentário:

  1. Viva o uísque,viva a cachaça e viva Jonas o carismático.Gosto da história de Jonas...Essa também ficou boa.

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