terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Jardim


Por mais que venhamos a tentar controlar a vida e buscar a felicidade, sempre nos deparamos com as muralhas da cidadela da morte. E elas estão sempre em ruínas e quando chegamos às suas portas, desmanchamos no ar e voltamos a ser aqueles átomos que compõem a poeira, a água, a árvore, o piso mais baixo da vida na Terra.
A questão é se devemos nos esmerar numa batalha já inscrita no tempo e na qual estamos fadados a perder, porque morremos sempre no final da história. Mas antes de partirmos, os desejos nos impulsionam na busca pela saciação de maneira tirânica. Assim quixoteamos quando tentamos restaurar e decorar as muralhas da cidadela da morte, ao mesmo tempo em que nos entregamos às ordens dos desejos e passamos a trabalhar para sustentá-los. Claro que essa busca gera sofrimento. Afinal, como obter prazer sem sofrimento? Também é fato que viver sem prazer não é possível, não é digno, é algo desumano.
Foi pensando nesse dilema que o grego antigo, Epicuro de Samos, 341 a.C., atinou no fato de que os animais não sofriam porque procuravam aquilo que lhes fazia bem. Fluíam junto à natureza e não através dela ou contra ela. Com base no pensamento de outro filósofo, Demócrito, entendeu que a humanidade era toda composta de átomos aglomerados e não algo mágico ou transcendental.
Já os deuses, segundo Epicuro, estavam dentro da natureza e não fora dela e eram a bem-aventurança que todo homem deveria entender que não poderia seguir, a não ser metaforicamente. Permanecer discreto na vida, deixando que a história passasse à margem da janela de seu Jardim, enquanto se deliciava com aquilo que seu corpo não só ansiava, mas podia suportar, era sua proposta de vida. Se depois da saciação de um desejo ocorresse qualquer mal estar, enjoo, tristeza, dores, e/ou doenças diversas, esses desejos deveriam ser evitados; mas entendidos individualmente. Que cada um descobrisse os desejos que lhe cabiam saciar. 
 Quantas taças de vinho pode-se beber e permanecer íntegro? Qual o limite de se saborear carne, queijo, azeite e sair ileso, leve, apto ao cochilo da tarde e sem nenhuma perturbação? Assim era o Jardim de Epicuro, fechado do mundo, com pessoas em convívio pacífico junto ao fluxo da natureza. Nada de querer vencer o mundo, matar um leão por dia, ou manter uma queda de braços com outros homens para se ter um lar, filhos, um cargo e contas para pagar.
Em minhas andanças, por mais que possa parecer estranho, me encontrei com Epicuro. Os filósofos não morrem jamais, caminham como fantasmas pelas ruas, basta você querer enxergá-los no ir e vir das cidades. Dessa forma, à mesa de uma padaria, conversamos sobre o sentido da vida e não pude deixar de perguntar sobre os habitantes de seu Jardim. Como eram eles?
- ...pessoas comuns, que dormiam, comiam, bebiam e se enamoravam.
Uma receita tão simples, mas ao mesmo tempo quase impossível de ser praticada.
- Mas e o amor, meu caro filósofo, e o amor, como se fazia com isso?
- Coisas dos deuses. Mas se gera ciúmes, dor, estranhamento, não é amor, é negócio. Aí é melhor ouvir a música de Junior Parker que diz exatamente isso: “o amor não é nada além de um negócio que sempre segue em frente, mas faz as suas vítimas”.  
        Nunca imaginei que Epicuro pudesse ouvir Junior Parker, mas o tempo linear é uma ilusão binária. Estamos todos juntos nesse carrossel quântico. Um dia ele pára e poderemos descer pra conhecer o Jardim. 
E será dessa forma que iremos perceber o que teria sido se não houvesse países e nem nada pelo que matar ou morrer, além de viver as tarde à-toa, de mãos dadas com a garota que viéssemos a escolher nesse Jardim dos prazeres. Depois seria só esperar a manhã de Beck. Amanhecer sorrindo, leve e solto, como Beck propõe fazer. - Tem no You tube, se chama morning, autor: Beck. Ouça. Abraços. 


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