sábado, 26 de dezembro de 2015

A nascente


Em meu caminho acadêmico, nessa minha luta por aprender para depois ensinar conceitos que vão do inútil ao prático extremo, eu mesmo, por vezes, me deparo com uma nova visão sobre as coisas que nunca deixei de olhar, mesmo de olhos fechados. É o que os judeus chamam de hermenêutica: a releitura do mesmo caminho que trilhamos dia a dia.    
Machado de Assis escreveu um conto chamado, a Missa do Galo, onde o mesmo termina com uma atmosfera de sensualidade entre uma mulher casada e um jovem rapaz, numa sala banhada à luz de lamparinas, quase à hora de saírem pra missa em que se anuncia o nascimento do Salvador. Mas o escritor brasileiro não foi o único que analisou o catolicismo, há uma infinidade de pensadores e artistas que o fizeram. Max Weber, sociólogo, mergulhou numa diferença entre católicos e protestantes e na maneira como dividiram o cristianismo no universo europeu. - E digo que as duas partes pecaram por excesso de autoritarismo.
Mas nessa crônica não quero seguir nessa linha, mas sim numa parca revelação que tive na noite de Natal, enquanto que na tela da TV a mesma Missa do Galo de Machado de Assis se desenrolava; o Papa Francisco I seguia seus passos pela nave, o coral de crianças liberava uma voz inocente e cristalina em busca dos ares puros. As esculturas eram angelicais com suas expressões metafísicas e ainda havia o silêncio dos fiéis - nem sempre somos fiéis a nós mesmos, mas queremos ser fiéis a uma força maior. E tudo arrebatado pelo canto gregoriano usado para a leitura da sagrada escritura, metáforas de primeira grandeza.
E foi dessa forma que fez-se a luz em minha cabeça. Se o protestantismo é o cristianismo do empreendedorismo, do trabalho, da integração, da prosperidade, da cooperação, das interpretações críticas da palavra e da manutenção da moral por um forte discurso do pastorado, o catolicismo é o cristianismo do pecador, daquele que busca a pureza, a limpeza da alma ante a deterioração moral em que a história de cada um de nós mergulha vez ou outra.
Temos que entender que pelo julgamento da razão não poderemos emergir do pó, do barro em que nos vemos mergulhados quando agimos sobre o mundo. Surge, com o decorrer do tempo, uma ânsia pela pureza, pelo ar leve, pelo espírito livre dos pássaros que alcançam nuvens tão altas quanto o azul do céu. Como conseguimos fazer isso numa noite de Natal, num templo de pedra, cercados de estranhos?
Só o fazemos porque nos movemos em direção à pureza através da música das vozes do coral de crianças, pela simetria das esculturas, pelas cores harmônicas da pintura, pela idéia de que todos estão ali para se lembrar de um nascimento numa manjedoura e que isso nos fará melhores; as dúvidas sobre o milagre não têm importância, a metáfora é verdadeira e seu efeito não menos humano e não menos real. Todos nós, em silêncio na nave do templo, todos com faces assimétricas, cheios de equívocos na alma, nos deteriorando ao longo do tempo. É nesse momento que nos lembramos do quanto ferimos e fomos feridos, de quanto almejamos uma paz que vai além da nossa história, além das nossas lembranças e nos deparamos com o resultado daquilo que plantamos e que chega em nossas mãos diariamente; pedimos, a quem possa, a quem tenha poder, a suspensão do peso que há no peito.
É sempre bom lembrar que o catolicismo nasceu dos porões de Roma, em meio a simplórios que desejavam um caminho que passasse à margem do sadismo daquele império. Sonhava-se com um mundo puro e infantil, onde a existência do coração, mais a consciência da existência do coração do outro, - eis a alteridade -, pudesse ser a base de um novo mundo movido pelo eterno sal da terra. A simplicidade do amor infantil capaz de entender que, qualquer homem de coração puro seria como Deus, e que Ele sempre acabaria sacrificado pela força do pragmatismo que destrói, não só a alma humana, mas também o mundo que nos alimenta, (vide hoje as crises ambientais), foi a nascente do cristianismo católico. - Pena, hoje esquecida.
Mas enfim, eu estava diante de um culto que tem milênios de idade. Apesar de toda digitalização do mundo, um ritual medieval faz um efeito danado na alma da gente. Então me lembrei do Eclesiastes, que diz que nada é novo sob o sol e tudo é vaidade. Mesmo com toda essa parafernália midiática, com todo os celulares e suas ferramentas de comunicação, ainda lidamos com os mesmos substantivos abstratos: amor, traição, solidão, agonia, desprezo, avareza, humilhação, abandono e coisas mais. É esse o segredo de um ritual medieval ainda fazer sentido. Mudamos o jeito de entender esses substantivos, mas os efeitos deles sobre nós são sempre os mesmos. Por isso precisamos das alturas, da pureza, da inocência. Enfim, começar sempre de novo e com várias sementes de pêssegos na mão.  

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Alzheimer


Alzheimer é um dos males do século. Uma doença em que a morte vem aos poucos com o desmanche do cérebro. Tudo começa com esquecimentos de tarefas corriqueiras e um dia se instala definitivamente com uma crise que mescla agonia, desespero e raiva. Já nem me lembro quando foi que minha tia me ligou dizendo que minha mãe não estava bem. Dizia que era uma filha de criação e que não pertencia àquela família. Fui em socorro. O que faria?
Ao lado dela, no sofá, mostrei-lhe a foto de seu irmão mais velho, o boêmio de alta estirpe, Jayme Mello, e lhe disse, “...se você é filha de criação, seu irmão mais velho também é, porque ele é a sua cara, só falta o bigodinho e o violão!”. Ela caiu na gargalhada. Aquela crise, especificamente, fora vencida.   
Mas o processo degenerativo continua e não me foi possível, como ser humano, entender, à época, o motivo disso. Sempre me perguntava: “...como que espiritualmente isso pode ser uma evolução? Haverá um dia em que ela se lembrará de que se esqueceu de tudo?”. Bem, sem respostas, segui em frente e veio a segunda crise: o retorno para a própria casa. Ao perder a noção de tempo e espaço, ela não reconhecia mais a própria casa, então queria retornar pra ela, porque sua mãe a esperava e já deveria, àquela hora, estar preocupada. No começo todos nós nos esforçamos para convencê-la de que a mãe, nossa avó, morrera em 1978 e que ali, onde estava com os dois pés, era a casa em que sempre havia morado. O que ajudava nesse momento eram as voltas de carro. Íamos mostrando as ruas, as pessoas e ela se achava de novo.
 O problema foi o número de vezes tivemos que fazer isso por dia. Normalmente umas quatro vezes. Nessas horas passamos a dar importância às coisas que nos são invisíveis, e/ou insignificantes, sobretudo quando estamos de posse de nossa arrogância. Coisas como: o pio do trinca-ferro do vizinho; o carro do fulano; o próprio fulano que aparece na janela; a árvore que faz sombra na porta da casa daquela conhecida que mora mais à frente; os pontos de comércio e seus respectivos donos; os fatos mais prosaicos como quando os netos passeavam de ônibus circular e de tão entusiasmados que ficavam com a avó, pareciam que iam se jogar da janela. Tudo traz a pessoa de volta, mas só por alguns minutos.
Um dia, nesse período em que sempre queria ir embora pra sua casa, me perguntou de maneira discreta e confidente, “...afinal, quem é a sua mãe?”. Eu sorri, reação que até hoje me espanta. Respondi-lhe dizendo seu nome. Dessa vez foi ela quem se espantou e me disse, “...nossa, é igual ao meu nome!”. Num outro dia, dessa mesma fase, ouvi ela falar de mim, pra mim mesmo, como quem fala a um amigo. E eram coisas boas de ouvir. Entre elas, “...sabe o meu filho, o Sávio, toca violão muito bem! Já ouviu?”. – Mãe é mãe, mesmo com Alzheimer.
Mas essa fase também passou e estamos, agora, como num mundo à base de fantasias. Ela vê pessoas, coisas, conversa com a TV, pega objetos imaginários no chão e às vezes nos mostra cenas do passado. Já me mostrou correndo na calçada, atrás do cachorrinho que tínhamos, quando vivíamos na rua Roberto Guarani, 154, nos idos de 1975. Sei a data por causa do nome do cachorro: “...olha lá o Savinho correndo atrás do Bingo! Viu como ele é rápido?”. Disse isso enquanto apontava pra debaixo da mesa de jantar.  
Tenho tocado violão pra ela. A memória afetiva não se desmancha. Talvez seja esse o segredo da espiritualidade que só agora entendi. Ou penso que entendi. Dias desses comecei os acordes de Stairway to heaven, do Led Zeppelin. Eu ouvia isso à exaustão quando era adolescente. Quando as notas entraram por seus ouvidos, ela levantou os braços, como numa celebração, e chorou. − Minha mãe, mesmo de dentro daquele cérebro que se espatifou como o barco de Robin Crusoé nos rochedos, ainda percebe sentido da vida e ela é boa. − Depois que acabei de tocar, ela disse: “...essa música é linda! Linda!”. Em seguida foi pegar um objeto invisível no chão. Bem provável que fosse um diamante, uma pérola, ou alguns grãos de areia da praia em que Robson Crusoé desembarcou.
A única coisa que nos cabe é silenciar. Sorrir. Dar carinho. Às vezes chorar e seguir em frente, com dignidade e paz no coração. A música mm fez entender isso. No meio de todos aqueles destroços está a figura humana que conheci quando desembarquei na Terra, ainda criança, há décadas, mas ela já estava lá, pronta para preparar meus primeiros passos e me alimentar com o próprio leite.
Dona Cida, não me lembro da última vez que lhe disse que a amava, mas nunca é tarde pra se dizer isso. Dessa forma, nós e o Led Zeppelin, vamos passar mais um Natal juntos, depois de tantos outros que passaram em vão. Beijos.    

         

                       


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Além do explícito!



Dias desses um amigo me disse que o mundo havia se tornado explícito por demais: nunca nos xingamos tanto, ao mesmo tempo em que nos menosprezamos com grande prazer, abraçamos o cinismo e a ironia como partes essenciais da vida e o sexo nunca foi tão fácil com essa nudez onipresente e global; além do fenômeno cultural que revela que a distância entre as narrativas vulgares da música popular − funk, sertanejo e pagodes –  e o modo de vida cotidiano, nunca foram tão próximos. Tudo é uma denotação. Vive-se o que se canta, o que se escreve e o que se diz. – Sim, o idealismo morreu. Detalhe: nunca fui um idealista, pensei que era, mas no fundo sempre fui mais um estranho à minha terra do que um idealista.
Em termos históricos se pode afirmar que, em décadas passadas do século XX, o essencial estava à margem e a realidade em si não era a realidade propriamente dita. A verdadeira realidade desejada ainda estava por vir num advento que causaria a elevação de nossas consciências a patamares superiores do pensamento e, por consequência, em nosso modo prático de vida. A subjetividade da arte, o sonho da política, a força da crítica e o conhecimento científico eram as autoestradas que nos ligavam a uma humanidade mais leve e aprazível e recheada de amabilidade, pra isso bastava seguir em frente.
Deveras, quero dizer que não eram as guerras ou as políticas de Estado o que representava a humanidade, mas sim os discos dos Beatles, os poemas de Pessoa, o cinema de Fellini, o sorriso de Brigitte Bardot.  A margem e a boemia resgatavam não só a juventude da caretice, mas a fazia sonhar com mundos e ‘selfs’ melhores.  Essa construção, ou autoconstrução, eram feitas num sentido evolutivo, um objetivo a ser alcançado. Ou melhor, como diria Weber, ações com espírito, com uma característica de mesclar a existência com o sonho. Sim, dessa forma podemos entender que o sonho faz parte da realidade, quando se relaciona com ela de maneira equilibrada e norteadora; o problema do sonhar está justamente na transferência dos sonhos coletivos para a política; em termos práticos, permitimos que grupos políticos passassem a sonhar a realidade por nós. No fundo é isso que escolhemos nas eleições: os sonhos ‘políticos’ de grupos partidários.
A contrapartida da tese do sonho como espírito da sociedade, passa pela afirmação dos conceitos existencialistas. Quero dizer: será que quando mergulhamos nessa instantaneidade do mundo virtual, avessa e árida em relação ao sonhar, que nos torna oniscientes, não só do que ocorre no mundo, mas que nos leva ao fim do polimento das relações humanas, − exceção em nossos enclausuramentos em grupos sectários e/ou afetivos − não se trata, no fundo, da mais crua realidade?  Tudo é o que é?
Hoje é muito mais fácil de se conhecer a humanidade do que no século XX. – Se vamos nos decepcionar ou nos surpreender, só a história dirá, ou isso vai depender diretamente do ponto de vista que desejarmos entender dos fatos. Não há esperança, somente existência e parcialidade em nossas exposições e análises críticas daquilo que somos, e do que o outro é, nesse mundo virtual e global; as definições já estão prontas antes mesmo dos fatos acontecerem.  As ‘soluções’ para a refinada decadência humana pós-moderna passam pela assepsia, amputação e confinamento das partes de nós mesmos diagnosticadas como ‘patológicas’, e isso com base em um senso comum que pratica o fim da polidez e exalta as grotescas ofensas com que divergentes se tratam on-line. Isso não seria outra coisa, senão um sintoma de veracidade extrema? Ou como diriam os existencialistas: eis o fim da maquiagem! - Não somos mais misteriosos uns para os outros.
Não há soluções que possam ser arquitetadas academicamente, fato que expõe nosso sistema educacional a um desnorteamento claro e óbvio.  Pensar, e logo concluir que se existe como indivíduo, não garante grandes alterações na realidade, talvez só aumente a sensação de impotência perante o desenrolar dessa mesma realidade que nos cerca. Ou nos juntamos a ela, ou a conduzimos com nossa arcaica concepção de avant-garde a lugares onde a atmosfera possa ser mais limpa. Isso, claro, se o consumo deixar.                                  

    

sábado, 14 de novembro de 2015

Luto


...enquanto a humanidade, ou parte dela, vier a pensar
que exterminar partes de si mesma em nome de uma 
metafísica, de uma teologia, ou de uma filosofia seja
algo divino, é sinal de que ainda
não ultrapassamos o umbral que separa o Homem da animalidade miserável e ignorante.

Paris, 13/11/15. a cidade luz ficou coberta pelas trevas do monoteísmo. 

    



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Caeiro, quando voltaremos ao catolicismo?



Quando tiver se transformado, por definitivo, em escombros. E é assim que caminharemos sobre ele, no futuro, por suas ruínas, que então terá em si o charme da inocência. Será como passear por um museu de brinquedos que tivemos na infância. Bonecos, carrinhos, bolas, revólveres, peões, palhaços. Riremos de nós mesmos ao lembrarmo-nos que o som dos motores de nossos pequenos caminhões saia de nossas bocas. Era a mais pura verdade a encarnação daquele automotor que nunca se cansava; era assim, também, na mais pura ‘verdade’ da Igreja com suas histórias e missas: imaginação de criança.
Nessas ruínas de brinquedo talvez até cheguemos a sentir uma emoção, afinal acreditávamos em tudo aquilo, como se tudo aquilo fosse a verdade única e que ela ainda nos tornava seres especiais. Veremos os resquícios do maniqueísmo dos homens clericais por de trás das faces dos santos esculpidos em pedra e madeira. Os sons de nossos pés no granito ecoarão pela nave, a luz virá pelos vitrais, sim, associaremos o templo àquela casa na árvore que ficou esquecida no quintal da casa dos avós, há décadas e décadas.
O pobre Cristo, cabisbaixo, crucificado em sua sobrevida pós-moderna, respirando por aparelhos e presente somente nas bocas do conservadorismo mesquinho e estelionatário de padres, pastores e santidades mais, estará de olhos fechados, entregue à escuridão medieval da qual nasceu. Não poderemos fingir que não vemos o Papa Francisco como um fantasma restaurador de brinquedos inúteis, ávido em seus sonhos pelo retorno daquilo que a Igreja nunca foi: a casa de Deus e a morada inocência.
Os ouvidos mais apurados, e talvez com dons mediúnicos, irão perceber os gritos dos meninos estuprados pela pedofilia sacra, nas alcovas das sacristias, ecoando eternamente no tempo, que apesar de nunca parar, não nos deixa esquecer e menos ainda nos permite dar a outra face. Saberá ainda, aquele que souber ouvir, que essa dor vai do corpo à alma e permanece no espírito, e nem o maior dos hipócritas, que hoje ainda se ajoelha e reza e comunga, conseguirá deixar de ouvi-la.
Sim, nossa reminiscência terá momentos de náuseas porque nunca nos será possível esquecer os homens ‘sagrados’ que governaram aquilo que agora são escombros e ruínas. E que esses mesmos homens, no passado, queimaram pessoas, armazenaram fortunas, conviveram pacificamente com a miséria alheia e destruíram os sonhos de milhões e milhões de inocentes. Para sobreviver, a Igreja tem que ser despossuída de consciência. Sem consciência não há autocrítica. Sem autocrítica ela será sempre uma ruína. E segue, ad infinitum, esse ciclo vicioso. Amém.
Porém, do meio das ruínas o menino renasceu. E foi como no poema de Alberto Caeiro, em que numa tarde brilhante o menino Jesus o visitou em seu universo zen e lhe disse coisas que só se diz a um amigo e que se pudesse, proclamou o menino, viveria outra vez, mas sem os seguidores, sem os erros históricos que lhe transformaram num destruidor de sonhos e desejos. Queria viver na simplicidade. Sim, ele resurgiu ali, de novo, ante aos meus olhos, o Menino. Alucinação?  
Enfim, peguei-o pela mão e lhe disse que poderíamos ir embora. Havia ar puro no lado de fora, mas às portas das ruínas nos deparamos com Lutero e seus pastores malafaidos que ofereciam pedras de crack ao pobre menino e também um rifle americano, para que ele caçasse negros, gays, poetas, judeus e diferentes mais, em transe psicótico profundo. Abracei-o no peito e passei pelos filhos das trevas, mas no lado de fora ainda havia outro perigo.
Alá e Maomé nos esperavam com os corpos cobertos por dinamites, gesticulavam para que nós nos juntássemos a eles e que no céu, bem lá no alto, 11 mil virgens nos receberiam de braços abertos, bastava pra isso que explodíssemos inocentes em nome do único deus, Alá.
Conseguimos seguir em frente, o menino não era metafísico, agradeci ao destino por essa dádiva. Paramos num jardim e nos deitamos na grama, o sol batia em nossos ossos. Num estalo entendi que nossa vida deveria se resumir à respiração do ar puro, do sol sobre os ossos, da água clara para molhar os pés e dos braços da pessoa que se ama.
Então o menino me perguntou, “Será que um dia poderei amar alguém a ponto de dividir a vida com esse alguém?”. O menino era um deus que não podia amar outro alguém porque os homens lhe diziam que era pecado. Seu destino era viver pra sempre morto na cruz e ressuscitar para uma futura vingança contra os pecadores. Fora trancafiado numa fantasia. Dessa forma, amar alguém sobre todas as coisas era o que mais desejava ter, mas consistia na montanha mais difícil para ele escalar. Indiquei-lhe a grande cordilheira diante de nossos olhos. Ele então me confidenciou:
“Nunca me esqueci dos olhos da Samaritana, naquele dia, no poço!” Então subiu as montanhas, em busca do lugar de onde vinha a água pura.                        


sábado, 10 de outubro de 2015

Diálogo sobre um Patife



Sócrates: Meu caro Coxinus, diga-me o que o incomoda? Soube, através de nossos amigos, que andas a estudar a origem das palavras, e que um adjetivo específico o tem atormentado de forma asfixiante. Isso é fato?
Coxinus: Não o negarei, amigo Sócrates, que o adjetivo, Patife, e o seu significado, dominaram minha mente tal como um fantasma e que agora não mais me abandona. Mais ainda do que isso, pois passei a crer que o vejo patifes em grande monta em nossa sociedade, andando pelas praças e a discursar para muitos ouvidos e sem que algo que seja minimamente justo os impeça. Seria o fim de nossa moral?
Sócrates: Vejamos, caro Coxinus, se não me engano, dentro de minha ignorância, ‘Patife’ é uma palavra de origem desconhecida e diz respeito aos homens que não cumprem os contratos que assinam, menos ainda são confiáveis quanto à ‘Palavra’ empenhada em qualquer promessa ou em acordos pessoais e/ou públicos. Quero dizer, homens em que não se pode confiar. Se não o confundi, mais do que esclareci, creio que seja isso.
Coxinus: Não, é isso mesmo Sócrates! Concordo contigo, ao mesmo tempo em que me desespero, pois vejo Patifes nos mais altos cargos de nossa administração pública, tanto quanto nas empresas privadas que fraudam a sociedade e o Estado de maneira vil e constante. E mais do que isso, quando me diz que Patife é todo aquele que não cumpre o que disse e até mesmo aquilo que assinou, chego a ter arrepios, mas não posso fugir da imagem que me vem à cabeça: a figura de nosso governador. Oh! Amado Sócrates, nosso governador é um Patife?
Sócrates: Coxinus, que a beleza do despertar esteja convosco! Sim, se você diz que entende que nosso governador é um Patife com base no discurso que ele proferiu, aqui em nossa praça, durante sua campanha eleitoral, tens razão. Muito ao contrário do que prometeu, nosso governador fechou escolas, determinou um sigilo de 25 anos dos contratos das obras do transporte público, negligenciou o abastecimento hídrico de nossa província, sua política de segurança pública pratica o extermínio de adolescentes pobres, repórteres são presos quando filmam protestos, massacrou os moradores do bairro Pinheirinho, sua administração da saúde pública é um desastre e ele ainda cortou, do orçamento anual, o dinheiro do leite das creches públicas mais carentes. A razão é toda tua, Coxinus, nosso governador é um Patife, não posso negar o que dizes.
Coxinus: Mas então, venerável Sócrates, como explicar o fato de nosso povo acreditar nele e o manter no poder, já que se trata de uma chaga aberta diante de nossos olhos? Por que estamos tão cegos, se somos a província mais rica de nossa nação?
Sócrates: Creio, Coxinus, que todo Patife é um ardiloso em potencial porque pensa muito tempo antes de suas ações, pois como sabe que não vai cumprir o que diz, se antecipa e prolifera ilusões sobre sua figura pública para enganar o pobre povo contribuinte de nossa rica província. No caso de nosso governador, ele usa verbas da educação para manter assinaturas de revistas, jornais e até de TVs a cabo que são espalhados por todas as repartições públicas. Não é difícil de entender que para manter esses rentáveis contratos, os donos dessas mídias falem bem, ou mesmo nunca critiquem as atitudes desse nosso Patife. Isso mantém seus níveis de popularidade em alta. Como nunca se veicula nada de ‘grave’ sobre aquilo que é de responsabilidade do governo da província, ele passa a ideia ao povo de que é um bom gestor.
Coxinus: Mas Sócrates, ele ganhou um prêmio hídrico em plena falta d’água! Como não pude entender, nesse tempo todo, que ele nunca foi aquilo que dizia ser?
Sócrates: Pelo fato de nossos eleitores praticarem o comportamento Idiota. Como você sabe, aqui na Grécia Antiga, Idiota quer dizer ‘todo aquele que não se interessa pela política pública, mas somente por assuntos domésticos’, inclusive isso foi tema do ENEM.  Lembra-te?
Coxinus: Sócrates, entender essa trama, essa farsa que nos envolve é terrível.
Sócrates: É ainda pior, Coxinus, pois todo Patife, naturalmente, se torna também um hipócrita, pois faz do fingimento um acessório importante para seu caráter. Por isso a sensação de asco quando ouvimos sobre a entrega de um prêmio hídrico para um homem que prolifera desertos. Isso nos remete a um lugar muito além da corrupção e da cara de pau de um governador que se diz um homem honesto e ético.   
Coxinus: Mas desse mal, Sócrates, diga-me, como poderemos nos curar? O que nós, em nossa cidade, temos em comum com ele?
Sócrates: Não te lembras, Coxinus, quando nossa cidade foi procurá-lo o que ele nos respondeu? Lembrar-te-ei nesse instante, amigo, caso tenhais esquecido, pois ele nos disse que nossa cidade ficava no fim do mundo e era uma roça, por que então precisávamos de serviços na saúde, educação, cultura e infraestrutura?
Coxinus: Sócrates, me sinto um...um ...Idiota!
Sócrates: Espero também que os 80% dos eleitores de nossa cidade que votaram nele o sintam da mesma forma, e mudem de voto na próxima eleição. Acho que isso seria o mais justo de acontecer. Não achas?
Coxinus: Amém, meu caro Sócrates! Ainda digo mais: não seriam esses crimes, desse nosso Patife, dignos de um impeachment? 
Socrátes: Somente em países onde o judiciário não é corrupto, a mídia diz a verdade e os coxinhas não são vistos, graças a uma grande quantidade de livros lidos, isso seria possível. 
Coxinus: Oh! Sócrates, por onde anda a Justiça?
Sócrates: Atualmente, sequestrada pela hipocrisia!


                          

domingo, 27 de setembro de 2015

Democracia


Me foi pedido, por um dos leitores de minhas crônicas, que eu escrevesse sobre a Democracia, ‘um desejo tão fácil de se ter e um presente difícil de ganhar’, como já disse a sensacional dupla da MPB, Sá & Guarabira, em uma de suas canções, Harmonia.
Deveras, se Democracia quer dizer ‘poder que emana do povo’, e vem pela escolha da maioria sobre quais serão os caminhos futuros, nada melhor do que uma eleição para se esclarecer quem deverá conduzir o Governo do Estado e a administração de interesses conflituosos dentro de uma sociedade ‘constitucionalizada’. − Governo esse que deverá deixar transparecer, ao máximo, os desejos e aspirações populares que o levaram ao poder.
Mas não é só isso, tem mais ‘angu debaixo desse caroço’.  Democracia não se limita só ao resultado da escolha de um pleito, ela é o sistema imunológico do corpo social que impede o desenvolvimento de patologias como a tirania, a ditadura e a proliferação de oligarquias. – Essas patologias são latentes nesse nosso corpo social e num mero cochilo da racionalidade, retornam ao poder e chicoteiam até mesmo aqueles que, de maneira extremamente irracional e ignorante, clamaram por elas.
Claro que, em tempos modernos, a legalidade e durabilidade de um poder eleito para o Governo é cada vez mais frágil. A opinião pública livre, a análise crítica de quem apoia, ou se coloca na oposição do discurso e dos programas eleitos são a essência do dissenso e a maior prova da diluição do poder centralizado. É esse dissenso, que por vezes nos remete à sensação do evento bíblico da Torre de Babel, quem impede a barbárie ‘do olho por olho e dente por dente’ e da História tutelada pelo déspota que escravizava seres humanos e monopolizava a riqueza, como era na Antiguidade. – Foi contra isso que a Democracia, nascida em Atenas, no século V a.c., na Grécia Antiga, se rebelou. Péricles, símbolo da Democracia ateniense, quando escolhido líder, distribuiu terras, fortaleceu a plebe e reduziu o poder da elite.
Benjamim Franklin, um dos pais da nação norte-americana, dizia que a árvore da Democracia, (da liberdade), vez ou outra, deveria ser banhada pelo sangue dos tiranos em combate com os homens livres, para que ninguém se esquecesse do quão importante é esse ‘frágil poder’ em que se tem o direito de escolher o próprio Governo, numa sociedade onde cada indivíduo é igual a um voto.  
Por isso o atentado golpista capitaneado, em nosso país, por Aécio Neves, junto a uma leva de oposicionistas no Congresso, no Judiciário e na mídia tem uma atmosfera abjeta e enganosa. Já de cara, misturar a operação Lava a Jato com um eventual processo de impeachment é pura canalhice. Primeiro, porque Aécio e sua turma estão muito mais ligados às empresas investigadas e suspeitas de pagamento de propina do que Dilma Rousseff. Segundo, porque não há nada que comprove um crime cometido pela presidente da República no transcorrer de seu mandato. Terceiro, num eventual impeachment, o governo cairia nas mãos de Eduardo Cunha, citado diretamente por ter recebido propinas das empresas investigadas da Lava a Jato e mais de uma vez; já há um pedido no STF para abertura de processo contra ele.
Porém cabe uma análise quanto à volatilidade da opinião pública sobre o governo Dilma. Não cabe como argumento para o impeachment os baixos índices de popularidade, isso talvez seja reflexo de um novo comportamento antropológico que parte de dentro das redes sociais, onde se percebe uma reprodução de ideias estapafúrdias que anseiam tornarem-se ‘verdades’ o mais rápido possível, pois afinal, ‘há uma eterna conspiração comunista do PT nos poros do mundo’. – Não sei como não acusaram o PT de ser o responsável pela estética gay do show do Queen, no Rock in Rio 2015, pois o PT, como dizem os conservadores, quer destruir a sagrada família brasileira.
Ainda sobre essa volatilidade de opinião, pode-se aventar que seja fruto de uma classe média mimada que, em função de resultados imediatos, deseja a troca da presidente da República tal como se faz com os técnicos dos times de futebol; ou como ocorre em escolas particulares que dispensam professores com base num ibope produzido pela opinião irresponsável de alunos menores de idade; ou simplesmente porque reproduzir ideias é um sinal de inteligência. Não é assim que se troca de Governo, mas sim com um bom debate racional em períodos eleitorais, embasado na história recente e em seus resultados materiais.
Nossa classe média quer viver num país imaginário, onde o sistema econômico é igual ao de Nova York, mas o Estado, por obrigação, deve praticar ações socialistas na saúde e na educação, ao mesmo tempo em que reduz impostos, e em termos de segurança pública, venha a executar, com bastante ostentação, um código penal característico de países como o Zimbábue, Congo e Afeganistão. E o líder, o tirano que representa essa aberração política, é Aécio Neves, um santo que aspira ser conduzido ao poder por um coro de anjos à base de alcaloides, e tudo para glória maior da TFP. Sim, parece a cena de um filme de Glauber Rocha, o que torna mais do que evidente que nossa classe média sofre, no momento, de um deliro fascista. 
Qual o remédio? Democracia Constitucional!

sábado, 19 de setembro de 2015

Happy Birthday - 3º promo da banda MIssissippi Drake Blues


Road for nowhere 

"Pô, quase todas as músicas tem on the road na letra! 
Parece uma estrada pra lugar nenhum!"

Dida Bruce, guitarrista do Mississippi Drake Blues,
que, dessa forma, batizou nosso disco que sai em breve. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O êxodo macabro dos refugiados


A primeira coisa que qualquer um quer saber em relação aos refugiados sírios, afegãos e líbios são os motivos pelos quais decidiram emigrar de seus países, em busca de novas oportunidades no território europeu. Claro, a impossibilidade de manter uma vida digna nos próprios territórios é a resposta mais óbvia.  Mas de quem é culpa dessa ‘impossibilidade’ sociopolítica (e econômica) que causa privações em milhões de pessoas? Claro, as disputas políticas internas e a exploração econômica predatória por parte de empresas do Ocidente.
Detalhando: na Síria há uma guerra pelo controle político entre grupos os jihadistas e os grupos curdos. Esse conflito ocorre há quatro anos e vem despedaçando o país. Além disso, o petróleo sírio, hoje explorado por empresas russas, foi barrado pela União Europeia em seu território, o que causou uma grave crise econômica na Síria.
O projeto dos EUA-Europa era derrubar o ditador sírio Basshar al-Asaad, que usou força extrema contra o movimento político chamado de Primavera Árabe. Esses tais protestos ‘primaveris’ trariam, em tese, transformações políticas que facilitariam a entrada de empresas ocidentais nos países do oriente. Fácil, dessa forma, entender a responsabilidade da Europa, a mando dos EUA, ao dar apoio aos curdos para estimular a guerra civil síria, além de criar um embargo para os produtos sírios, ao mesmo tempo em que apoiava, via mídia, a Primavera Árabe. Ações geoplíticas nos bastidores e no palco midiático.    
A Líbia, depois que o ditador Muammar Khadaf foi deposto, em 2011, mantém-se dividida em duas áreas políticas e com dois governos paralelos em conflito constante. Os poços de petróleo são explorados por empresas ocidentais, mas a insegurança política obrigou a paralisação da produção. A derrubada do ditador Khadaf, pela Primavera Árabe, mostrou-se um verdadeiro desastre, inclusive para a própria Europa, grande consumidora do petróleo líbio.
Há momentos em que os grandes jogadores de xadrez erram feio na dose da jogada no tabuleiro da geopolítica. Queriam tirar o ‘atravessador’ de petróleo, Khadaf, com a Primavera Árabe, mas como as coisas saíram do controle, o que resta agora é levar o país à maior deterioração possível, para que a necessidade de exportar petróleo a preço de banana seja a única saída do povo líbio. No longo prazo, o Tio Sam e a Europa fizeram uma bela jogada. – Claro, os refugiados não faziam parte do plano.   
No Afeganistão, um dos países por onde passa o gasoduto que vai do Mar Cáspio à Índia, hoje governado por um grupo que recebe apoio dos EUA, outrora dominado pelos Talibãs de Bin Laden, ocorre uma crise econômica sem precedentes. A base de sua economia é a venda da papoula, uma flor que é usada na fabricação da morfina e da heroína. – O choque de capitalismo prometido pelos EUA, depois da deposição do Talibã, não veio.
Deveras, a dança macabra dos refugiados é só uma reação à desastrosa política externa do Ocidente e sua eterna necessidade por petróleo barato. A manutenção da qualidade de vida nos territórios europeu e americano é alcançada em função da deterioração da economia dos países exportadores de matéria-prima. – Nunca é demais lembrar que isso pode ocorrer futuramente no Brasil, caso o conservadorismo dos tucanos, da mídia e do coxinato imperem sobre a legislação que viabiliza a Petrobrás e o Pré-sal, pois as privatizações dos mesmos correspondem à diminuição de nossa soberania.  Americanos e europeus desejam evitar que o Brasil industrialize o próprio petróleo.
É preciso entender que em tempos de redes sociais, cultura digital, globalizações, informação just-in-time, liberdade sexual e consumo desenfreado de drogas, a velha receita colonial da exploração das grandes reservas de matéria-prima nos países pobres mantém-se em pé. Só são benvindos, nos EUA e Europa, os recursos naturais desses países carentes, o mesmo não se diz das pessoas, dos corpos que compõem a cultura desses lugares que, em função da crise gerada pelo ocidente, desejam atravessar uma fronteira física e começar uma vida nova. A emigração de pobres para territórios desenvolvidos é quase uma heresia, um crime e não se pode fazê-lo sem encontrar resistência militar e midiática. Trata-se de uma grande injustiça camuflada pelo jornalismo investigativo e ignorada pela ONU.
No Brasil, o coxinato propaga posts criticando a truculência dos europeus contra os refugiados, mas em contrapartida, quando o assunto nos diz respeito, expulsam, todos os dias, em frases de ódio e pronunciamentos xenófobos, os haitianos, os nordestinos, os negros, os índios e etc., etc..

                                


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Descubra se você é um fascista

Não se preocupe, caso seu diagnóstico for positivo para a doença do fascismo. Isso tem cura. Tratamento: um bom orgasmo, uma boa dose de vinho, um bom rock e uma boa poesia. Pronto, você estará a salvo! Abraços.  

Quem é teu inimigo?
O que tem fome e te rouba
o último pedaço de pão chama-o teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
de teu ladrão que nunca teve fome.

Bertold Brecht



segunda-feira, 27 de julho de 2015

A Ópera do Belzebu

Eu e o bom amigo, Orson-Wells, estamos escrevendo uma Ópera baseada numa história do folclore nordestino: O boi misterioso, que transformamos na Óperra do Belzebu; incluímos entidades do Norte também, afinal, todo delírio é permitido. Fiz, do roteiro da Ópera, um conto, uma narrativa para nos orientar na fabricação das canções e dos instrumentais que ocuparão os interstícios da 'estória', além dos diálogos dos personagenes.           




I

O Belzebu

Sem que ninguém soubesse como, assim no meio da noite, apareceu um boi negro no meio da rua. Mugia igual a um leão sonhando com o gosto da carne nos dentes. Nada no céu ou na terra poderia se colocar de frente àquela força bruta que corria de um lado pro outro em busca de conflito. Os habitantes da cidade, todos cristãos, olhavam pelas frestas e janelas aquela criatura negra e chifruda raspando as patas na terra.  Rezavam para que um vaqueiro herói lhes salvasse a pele, abismando de volta o boi às profundezas das quais nascera.
Mas em vão, nenhum temente a Deus saiu do conforto da casa para enfrentar o mal. Ocorreu, de repente, um grito seguido de um estalo, um relâmpago, onde havia anos que não chovia, fora visto; depois um trovão de céu limpo, e o boi, sob os poderes de um feitiço, ficou sobre duas patas e se transformou num homem de terno branco, bigode e espingarda em punho. O recém nascido da fera gritou tão forte que até o silêncio se assustou: “Já que aqui não tem homem, só cristão frouxo rezadô, sou eu quem vai mandar e pronto!”.
E em pouco tempo na cidade, as melhores terras, a melhor casa, os melhores animais e o poder de dizer sim ou não passou a ser propriedade do Coroné do Negromonte, que tendo aparência de homem por fora, por dentro era a alma do próprio cramunhão. O padre, com medo, lhe fez honras; os vereadores, com mais medo ainda, criaram leis que regulamentava seu poder; as famílias mais importantes, sempre que lhe encontravam, faziam-lhe referências: os homens tiravam o chapéu e as crianças lhe diziam: “bença, Coroné!”. – As mulheres eram só risinhos e olhares travessos.
Das sombras das lamparinas brotaram os jagunços do Coroné. Andavam armados ao redor dele e nunca sorriam. Ninguém olhava atravessado para o poder das trevas que agora caminhava sobre as ruas e determinava o funcionamento do mundo. Mas poder e prazer nunca são o suficiente, então o Coroné anunciou ao mundo: “... filhos meus, escravos meus! Vou me casar! Quero zabumba, sanfona e baião! Também quero o amor da mais bela flor. Que ela venha até minha casa ‘inda’ hoje, antes que o sol se deite e diga, com sorriso na cara, que será minha esposa!”.
Na igreja o povinho da reza e das novenas obrigou o padre a ir até a casa de Maria, a que o noivo havia fugido com a chegada do boi, pra dizer que ela era a escolhida pra ser noiva do Belzebu. O noivo que Maria tinha, pobre moço, fora tomado por uma bateção de dentes quando o boi apareceu na cidade, foi tanto medo que adquiriu um vento gelado na alma e não pensou duas vezes, que Maria ficasse pra trás.  Dessa forma, a pobre moça nada pode fazer quando o padre lhe disse que era ela a escolhida pra servir o Coroné. E era melhor ela obedecer, senão toda a cidade pagaria o pato.
Maria chorou em silêncio. Mas antes de se apresentar ao Coroné, jogou no rio uma garrafa com um bilhete dentro, para que alguém pudesse ler sua trágica história e vir lhe salvar. Feito isso, postou-se resignada diante do homem mais poderoso da cidade, em meio aos festivos olhares dos subalternos mais importantes da corte de Belzebu e anunciou estar disposta a se casar com ele. O Coroné gostou do que ouviu e em seguida berrou: “O casório vai ser daqui a sete dias!”.


II

Iara

A garrafa seguiu pelo minguado rio. Talvez guiada pelas mãos de anjos, ou pela providência, venceu os obstáculos e depois de um dia inteiro e uma noite rasgando a vastidão, adentrou um remanso cercado por árvores e pedras.
Iara, mãe-d’água, com seus cabelos verdes e profundos olhos castanhos, morava ali. Enquanto a lua banhava as águas e ela esperava por mais uma vítima de seus encantamentos, encontrou a garrafa e leu o bilhete. Foi tomada por um sentimento de impotência. A bela Maria nas mãos de um Coroné das profundezas infernais. Talvez ela pudesse ajudar. Malditos eram os homens.  
E foi desse jeito, numa conjunção astral estonteante, que o matuto Marimbondo apareceu nas margens do logo, para aliviar a sede de seu rebanho de cabras, bem na hora em que Iara lia o bilhete de Maria. Ele sabia que ao se deparar com os belos olhos castanhos da Iara, isso seria seu fim. Seria aprisionado e não poderia nem rezar pela própria alma. Tinha conhecimento das histórias que contavam a respeito dela. Em poucos minutos morreria de tanto prazer, diante de tanta beleza, que nem iria perceber quando Iara cravasse suas garras em seu corpo e o levasse para as profundezas do rio.
Menos mal uma morte cheia de prazer. Melhor do que morrer com a boca seca, vendo a terra rachar de tanto sol. Quem negaria a nobreza desse destino? A beleza da Iara valeria o encontro definitivo com a morte. Aqueles cabelos verdes profundos, os belos olhos castanhos, os seios fartos, a pele lisa e perfeita, a voz agradável e macia era o que Marimbondo havia visto de mais belo no mundo. Quem poderia dizer que não havia misericórdia nessa vida? Suas cabras ficariam ao léu, mas era assim mesmo o destino dos órfãos.
Mas quando estava nas mãos da Iara, flutuando nas águas, saboreando o entorpecimento da sedução fatal, se assustou por ela parar o feitiço de repente pra lhe dizer: “... você precisa subir o rio e salvar essa moça das garras do Belzebu!”. Em seguida mostrou o bilhete. Marimbondo não sabia ler; então ela explicou o caso. Ele se apequenou depois de ouvir do que se tratava. Como poderia enfrentar o Belzebu, ele, um pobre criador de cabras?
Melhor do que explicar, era agir. Iara extraiu poderes da lua e transformou Marimbondo num homem forte, com peito largo e voz grave. Deu-lhe o nome de Virgulino. Tirou do fundo das águas uma espada e um facão bem afiados e disse-lhe que tinha pouco tempo, e que fosse logo salvar Maria das garras daquele monstro. Mas antes Virgulino indagou: “ Você me transformou num homem forte, num herói. O que faz a senhora acreditar que não vou fugir pra outro canto e nunca mais vou voltar aqui e muito menos salvar essa tal Maria?”
Iara sorriu e o alertou: “Em sete dias você vai virar um bode e passar o resto da vida comendo capim. A não ser que você faça o que eu mandei você fazer e volte aqui pra eu desfazer o feitiço! Vai! Vai! Já tá perdendo muito tempo!”. E assim Virgulino se foi. Ou vencia Belzebu, ou seria transformado pra sempre num bode. Agora sim o destino lhe aplicara uma boa peça.
Iara ficou olhando aquele homem forte subir o riacho em direção à batalha. Também não sabia de onde tinha tirado o desejo de ajudar aquela pobre moça, já que não sentia pena de ninguém.

III

Virgulino

Virgulino subiu o rio e em menos de um dia e assim chegou ao reino do Coroné Negromonte. A cidade estava enfeitada com bandeirinhas; o povo vivia o preparatório do casamento. Maria permanecia em sua casa, cercada de beatas que lhe preparavam tudo e pareciam muito felizes; as crianças corriam pela rua; os homens bebiam no bar junto do Coroné, que esfregava as mãos em sinal de alegria ansiosa; logo teria sua mulher. Ele dizia aos homens, seus admiradores, que não ficaria somente com uma esposa, tinha calibre pra mais de três. E que com todas elas, sem exceção, iria se casar na igreja e com a cruz de cabeça pra baixo no altar, porque ele era senhor do mundo, não o tal de Jesus Cristo. Alguém mais corajoso o lembrou, em meio a conversa do bar, que a Igreja só permitia um casamento. Ele deu um murro no balcão e anunciou que o Papa teria de mudar essa lei. E todos concordaram.
Mas o assunto foi desviado. O ar ficou tenso. Um estranho silêncio veio das ruas pra dentro do bar.  Na entrada principal da cidade, no mesmo lugar onde o boi havia aparecido, um homem com espada e facão em mãos anunciava um desafio ao Coroné. Gritou com todos os pulmões e pra todo mundo ouvir: “... soube que aqui tem um boi chifrudo que tem fama de valente. Vim aqui pra arrancar o couro dele e colocar um lacinho cor-de-rosa na ponta do chifre. Cadê a besta?”.
Ao ouvir essas palavras, o Coroné bufou feito um demônio e saiu em disparada. Era uma mancha negra correndo em meio à poeira da rua. Foi outro corre-corre. De novo o cramunhão era um ser na forma de um boi. Quando chegou cara a cara com o desafiante Virgulino, olhou bem dentro dos olhos dele e o atacou sem misericórdia. O barulho da espada e do facão batendo nos chifres assustou o povo. Maria, sem saber o porquê, sentiu uma ponta de alegria no coração. E isso ocorreu antes mesmo de um menino entrar correndo em sua casa pra dizer que um estranho, que há pouco chegara à cidade, havia desafiado o Coroné prum duelo.  Todos na casa de Maria foram todos pra rua, em direção ao campo da batalha; ela de vestido de noiva e as beatas rezando pro Coroné!
Maria ainda teve tempo de ouvir o segundo berro de Virgulino: “ ... e o inferno te espera, cramunhão de uma figa!”. Feito um toureiro das longínquas terras andaluzas, Virgulino bailou diante da fera até que lhe cravou a espada na corcova e depois o facão no meio da cabeça, rasgando o osso do crânio e trespassando a ponta da lâmina no pescoço. O barulho da carne batendo no chão tremeu a alma dos moradores. Belzebu estava morto. Enquanto todo mundo chegava pra contemplar o corpo morto do boi, a molecada explicou a Virgulino quem havia tomado partido do coisa-ruim ao longo de seu reinado de terror. 
Era gritaria pra todo lado. Agora iria começar outra festa. Maria chorava de alegria. Mas antes que todo mundo usufruísse na nova situação, Virgulino berrou mais uma vez: “... e pelo o quê me contaram, é preciso que se faça justiça: as terras do Belzebu serão dividas igualmente pra todos!”. Virgulino ainda disse mais: “... o padre, que aceitou colocar a cruz de cabeça pra baixo, vai sumir daqui, senão corto as tripas dele!”. Em meio à comemoração da maioria, o padre saiu de fino. E Virgulino ainda finalizou: “Dos vereadores não quero ver fuça de nenhum, senão vamos ‘fuzilá’ a cambada na parede da igreja!”. O povo era um delírio só; vereadores sumiram.
Maria não teve tempo de agradecer ao herói que logo saiu da cidade, mas não antes de cortar os chifres do Belzebu para mostrar a Iara que tinha cumprido sua missão. Tinha uma viagem de retorno e não podia perder tempo. Dormiu uma hora embaixo de uma árvore, às margens do rio e depois de dois dias de viagem, chegou ao remanso da sereia carregando os chifres da besta. Iara olhou o que havia sobrado da fera e depois jogou pra longe, pra que os cães fizessem a farra. Depois olhou pro Virgulino e o dispensou: “Vá, antes que eu mude de ideia!”.
Mas Virgulino não pode se conter e lhe disse: “Você é a mulher mais linda que eu já vi. Quero me deitar com você, nem que isso custe minha vida!”. Iara sorriu e gostou da coragem do homem que ela havia criado. Sorriu plenamente e mostrou-se receptiva. Chegou mais perto dele e lhe beijou com o hálito mais puro que Virgulino já tinha sentido. Deitaram-se na areia às margens do rio. Era uma areia limpa e confortável. Enquanto ele teve forças, manteve o corpo da Iara colado ao seu e a beijava ardentemente enquanto ocorria o coito.
Quando não pode mais conter-se, derreteu-se de prazer. Seus olhos viram estrelas distantes, seu corpo sentiu o sol das manhãs primaveris e um gosto de mel tomou-lhe o paladar. Na hora em que voltou de novo a si, percebeu que estava no fundo do rio. A água transparente permitiu que ele visse a lua lá no alto do céu. Depois sentiu os dentes da sereia em seu ventre e a água ficou vermelha. Mas ele sorriu. Depois tudo ficou escuro sem fundo e veio um silêncio calado com gosto de morte. Depois mais nada.
As cabras, pobres órfãs, ficaram nas margens do rio olhando Iara nadar em plena felicidade. Ela tinha sangue na boca e agora só queria se deliciar com o luar e o frescor do rio.                                                       

domingo, 19 de julho de 2015

O fantasma da lata


O sol estava a pino e não havia vento algum. Uma lata velha de cerveja deslizou sozinha sobre a calçada e fez um tímido ruído. Um fantasma tropical age assim mesmo, no meio da luz despudorada do dia. Mas o fato dele ter desencadeado esse movimento na lata, provocou em mim uma tentativa de compreender os pensamentos que estão dentro de minha cabeça. São sistemas intracranianos de palavras e galáxias de metáforas que compõem o ser que sou. Quantas ilusões, mentiras, simulações, esquecimentos formam o epicentro do comando do Eu sobre mim mesmo? Eu não saberia dizer. Apenas sei que altero a realidade, dentro de minhas possibilidades, e isso me torna um ser concreto e real.
Claro, sofismas ocorrerem, preferencialmente, na linguagem, mas nos acalantam. Brotam de um espaço real do cérebro. Às vezes o que é lógico também só ocorre nos tramites dos conceitos subjetivos que exalam significados. Mas isso não impede que ninguém venha a alterar e/ou criar realidades. Quando a realidade não é alterada por nós, independentemente de sermos seres à base de silogismo e/ou sofismas?
A própria não-ação de Buda é um ação. Mesmo que eu venha a dizer que: ”...nada poderá mudar o mundo em que eu vivo, pois mergulho sempre em meditações”, de nada me adiantará esse não movimento se ainda estiver envolto em memórias e, diante delas, identificar coisas especiais habitando os vastos territórios virtuais do cérebro. Mergulhado numa suposta não-ação, olhando minhas memórias como se elas fossem um cenário de um filme, me encontro na ‘ação’ de um observador. Se eu for muito fenomenológico nesse ‘cinema de memórias’, Freud me explicará assim ou assado, como fruto de frustrações; se for niilista o suficiente para explodir os altares, Nietzsche me dirá que sou a corda que fluiu do macaco; se eu for frio e impassível o bastante para seguir em paz, serei um ser desprovido e desconectado do inconsciente coletivo, um sociopata, segundo psicanálise moderna. − Um sociopata está ligado a qual parte do inconsciente coletivo?
Estamos nos movendo em direção a um mundo desprovido de personalidades híbridas, enquanto aceitamos, passivamente, a produção em série de patologias digitais coletivas. Mas independentemente daquilo que somos, alteramos a realidade. Assim a filosofia e suas intenções de revelar algo lógico naquilo que nos cerca, é, na realidade, um molde, uma forma sofisticada de alinhamento de fluxos de pensamentos com algo ideal e nem sempre concreto.
Quero chegar num lugar pouco confortável: de fato, segundo a psiquiatria, conseguimos mudar o mundo, reformá-lo, revolucioná-lo, mesmo que seja com as parcas ilusões que cultivamos em nossa mente. Seja num bloco de sofismas, num maço de verdades lógicas, ou num agregado de metáforas, inexoravelmente, podemos alterar a realidade e assim seremos reais para todo sempre. Mas não estamos sozinhos nessa jornada: os alcaloides nos fazem aderir ao processo com terno e gravata; a cannabis sativa nos leva à contemplação das ruínas ocultas por detrás da decoração do mundo do consumo digital e das redes sociais; os antidepressivos nos acoplam ao discurso cristão retrô-auto-repressivo; o vinho nos leva à mitologia grega e às aventuras sexuais e a uma porção de tranquilidade o suficiente para ouvirmos um LP do Pink Floyd. – Continue brilhando, louco diamante.
As substâncias são nossas vozes, os heterônimos, o jardim no País das Maravilhas onde nossos lamentos sobem em direção à lua. Não podemos mentir. É facil de se entender que este é o pior dos destinos: o de sempre alterar a realidade. O pior castigo dos deuses sobre a raça humana é a impossibilidade de mentir sobre nossa ação sobre o mundo concreto. Criamos os seres que nos amaldiçoaram ao longo do tempo e que permanecem entre nós e o Céu despudorado das liberdades. Não podemos mentir sobre o agir! Quantas vezes diremos isso com a ideia de que um dia seja uma mentira libertadora? Deveras não podemos mentir sobre sempre sermos reais e alterarmos, constantemente, o mundo concreto ao nosso redor. Eis o motivo da arte, da religião e da filosofia agirem da mesma maneira e com o mesmo método; talvez sejam até a mesma coisa quando se convertem em negócios lucrativos muito rapidamente. Não há sofismas no mundo da ação! 
Esse é o segredo dos lunáticos que conseguiram se apoderar do mundo. Inegavelmente, eles vivem dentro de nós.                  

domingo, 12 de julho de 2015

Promos da banda: Mississippi Drake Blues

Mississippi Drake Blues: 
Dida Bruce: guitarra solo, vocais. 
Samuel Fernandes: baixo. 
Sávio Notarangeli: voz, violão aço   


Promo 1:  Another Blues
(é só mais um blues)

um dia minha mãe me disse
que todos choram nessa vida,
e quando fosse preciso pensar no amor perdido,
eu iria sentir a dor,
então veria o Blues.
eu iria entender sem a ajuda das palavras 
e inievitavelmente 
a estrada gritaria meu nome. 





Promo 2: All together in Hollywood
(quase uma canção roubada)

acima das montanhas e bem longe,
os deuses forjam o mundo com seu martelo
e  'pequeno homem' corre para a cama de sua mãe..

mas em meu sonhos todos podemos viver
em paz em hollywood
todos juntos agora, 
todos juntos



Em pleno ano de 1979, um pobre menino sonhava em jogar numa Copa do Mundo, ele corria atrás da bola com uma camisa do Brasil F.C. (clone da camisa do Galo e/ou Botafogo, junto com primos e amigos vizinhos).  
Outro sonho era o de um dia poder tocar numa banda de rock.  
As copas não o quiseram, (rs) mas o rock, guardadas as devidas proporções, se tornou uma amigo gentil que o fez 'amuderecer' e conhecer gente boa ao longo dessa vida. 
Entre eles: Dida Bruce e Samuel Fernandes. 
Vlw! Espero que gostem do som. 

           



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Circus Esquizofrenóide


"...como um rio que não conhece sua fonte,
nem sua foz, mas que 'cavuca' as margens
de terra por todos os lados". Deleuze


“Precisamos da arte para dar sentido às nossas vidas, pois nossa visão intelectual do mundo é superficial”. Com essa frase o bom e velho Nietzsche, como se fosse um mestre de cerimônias circense, ou tal como um psiquiatra que estudou Jung, buscou maneiras de aliviar a condição humana da apresentação de si mesma para os próprios olhos. Melhor que esses ‘despudoramentos’, esse striep-tease humano estético seja feito pela arte. Fossem feitos por outras esferas, a morte pela decepção seria uma catástrofe coletiva que nos levaria a uma catarse tétrica: todos mortos diante de todos nós mortos. Olhos opacos, sangue inerte, azêmulas binárias: republicanos ou democratas? E mais nada.  
É só através da arte que poderemos escapar da esquizofrenia do capitalismo. Giles Deleuze, a grosso modo, disse que a sociedade produz em massa a subjetividade que usamos para formar os ‘indivíduos’ que acreditamos ser. Padrões, dispositivos, referências históricas são avalanches de significados que brotam dos desejos da máquina de pensamento coletivo e que são degustados numa missa economicista, onde as hóstias são os significantes (palavras). Somos sempre agenciados, moldados pela subjetividade da coletividade. Esperneamos através da política e só podemos nos libertar pela arte. (em tese)
A sociedade econômica produz, freneticamente, um dos conjuntos de subjetividades que nos agencia em moto perpétuo. O chorume dessa subjetividade capitalista nos leva à uma paranoia, a uma esquizofrenia que tratamos com uma forte dose de um paliativo histórico: a árvore do pensamento filosófico tradicional. Tal árvore pode ser assim descrita: raiz = metafísica; tronco = física; o fruto e a copa = ética/moral. O poder estaria nas mãos daqueles que podem determinar o valor de Pi do fruto. Seus limites, suas dimensões, sua funcionabilidade, sua posse, etc.. - A imagem do pensamento humano não é uma árvore, mas sim um rizoma (raízes entrelaçadas no subsolo da Terra) em eterno cruzamento de linhas, perspectivas e links. 
Dessa forma, não há, não pode haver indivíduos nessa máquina que produz sujeitos (‘assujeitados’) em meio a um mar de subjetividades padronizadas. Só há o ‘ser’ ‘a-sujeitado’ que, num projeto-pedagógico-educacional-transversal-curricular-universal, é idealizado para um ‘devir’ em consonância com o estereótipo de cidadão-padrão que, com sua subjetividade molecular − cada um é uma molécula – assassina sem tréguas o indivíduo de seu DNA. Os parâmetros são frutos da esquizofrenia do capitalismo, que é fruto da subjetividade do pensamento humano, explicado, eis o paradoxo, por um pensamento racional humano desterritorializado: a árvore da filosofia tradicional.
Mas na arte podemos frear a esquizofrenia com a melancolia, com a depressão, com o sarcasmo, com a violência e até, às vezes, com o orgasmo da produção de uma obra. É a estética da beleza que nos leva aos ermos territórios dionisíacos, onde significados e significantes se emudecem e a música edifica-se com a própria vida. Mas há sempre o perigo que vem do Hades: a indústria cultural que multiplica o bálsamo Dionisíaco. Adorno não nos deixa esquecer por muito tempo a esquizofrenia subjetiva multiplicada pelo capitalismo e da máquina que se edifica por de trás do todo.
E no mais profundo dos fundos dos abismos precisamos nos inventar. Não pode haver outra maneira de sermos humanos, a não ser naquela em podemos nos inventar, sempre, sem a ditadura da subjetividade coletiva; sem o estrangulamento do desejo, que é o movimento próprio de cada um, em favor da busca do cidadão padrão reluzente na tela do mundo, o altar do deus esquizofrenia.
Procure respostas em Magritte. Terapias só podem levar você a uma consonância com a esquizofrenia que diz que todos nossos problemas, históricos e culturais, se resumem ao complexo de Édipo consumista.        

Magrittea impossível tentativa de pintar o corpo humano.
pois estamos condenados a nos inventar sempre,
 mesmo que abracemos a esquizofrenia da sociedade
em claro ato de má-fé. Mesmo ainda que sejamos, nós mesmos,
indivíduos livres, será uma invenção. 
Absurdo? Não, loucura racionalizada.