segunda-feira, 27 de julho de 2015

A Ópera do Belzebu

Eu e o bom amigo, Orson-Wells, estamos escrevendo uma Ópera baseada numa história do folclore nordestino: O boi misterioso, que transformamos na Óperra do Belzebu; incluímos entidades do Norte também, afinal, todo delírio é permitido. Fiz, do roteiro da Ópera, um conto, uma narrativa para nos orientar na fabricação das canções e dos instrumentais que ocuparão os interstícios da 'estória', além dos diálogos dos personagenes.           




I

O Belzebu

Sem que ninguém soubesse como, assim no meio da noite, apareceu um boi negro no meio da rua. Mugia igual a um leão sonhando com o gosto da carne nos dentes. Nada no céu ou na terra poderia se colocar de frente àquela força bruta que corria de um lado pro outro em busca de conflito. Os habitantes da cidade, todos cristãos, olhavam pelas frestas e janelas aquela criatura negra e chifruda raspando as patas na terra.  Rezavam para que um vaqueiro herói lhes salvasse a pele, abismando de volta o boi às profundezas das quais nascera.
Mas em vão, nenhum temente a Deus saiu do conforto da casa para enfrentar o mal. Ocorreu, de repente, um grito seguido de um estalo, um relâmpago, onde havia anos que não chovia, fora visto; depois um trovão de céu limpo, e o boi, sob os poderes de um feitiço, ficou sobre duas patas e se transformou num homem de terno branco, bigode e espingarda em punho. O recém nascido da fera gritou tão forte que até o silêncio se assustou: “Já que aqui não tem homem, só cristão frouxo rezadô, sou eu quem vai mandar e pronto!”.
E em pouco tempo na cidade, as melhores terras, a melhor casa, os melhores animais e o poder de dizer sim ou não passou a ser propriedade do Coroné do Negromonte, que tendo aparência de homem por fora, por dentro era a alma do próprio cramunhão. O padre, com medo, lhe fez honras; os vereadores, com mais medo ainda, criaram leis que regulamentava seu poder; as famílias mais importantes, sempre que lhe encontravam, faziam-lhe referências: os homens tiravam o chapéu e as crianças lhe diziam: “bença, Coroné!”. – As mulheres eram só risinhos e olhares travessos.
Das sombras das lamparinas brotaram os jagunços do Coroné. Andavam armados ao redor dele e nunca sorriam. Ninguém olhava atravessado para o poder das trevas que agora caminhava sobre as ruas e determinava o funcionamento do mundo. Mas poder e prazer nunca são o suficiente, então o Coroné anunciou ao mundo: “... filhos meus, escravos meus! Vou me casar! Quero zabumba, sanfona e baião! Também quero o amor da mais bela flor. Que ela venha até minha casa ‘inda’ hoje, antes que o sol se deite e diga, com sorriso na cara, que será minha esposa!”.
Na igreja o povinho da reza e das novenas obrigou o padre a ir até a casa de Maria, a que o noivo havia fugido com a chegada do boi, pra dizer que ela era a escolhida pra ser noiva do Belzebu. O noivo que Maria tinha, pobre moço, fora tomado por uma bateção de dentes quando o boi apareceu na cidade, foi tanto medo que adquiriu um vento gelado na alma e não pensou duas vezes, que Maria ficasse pra trás.  Dessa forma, a pobre moça nada pode fazer quando o padre lhe disse que era ela a escolhida pra servir o Coroné. E era melhor ela obedecer, senão toda a cidade pagaria o pato.
Maria chorou em silêncio. Mas antes de se apresentar ao Coroné, jogou no rio uma garrafa com um bilhete dentro, para que alguém pudesse ler sua trágica história e vir lhe salvar. Feito isso, postou-se resignada diante do homem mais poderoso da cidade, em meio aos festivos olhares dos subalternos mais importantes da corte de Belzebu e anunciou estar disposta a se casar com ele. O Coroné gostou do que ouviu e em seguida berrou: “O casório vai ser daqui a sete dias!”.


II

Iara

A garrafa seguiu pelo minguado rio. Talvez guiada pelas mãos de anjos, ou pela providência, venceu os obstáculos e depois de um dia inteiro e uma noite rasgando a vastidão, adentrou um remanso cercado por árvores e pedras.
Iara, mãe-d’água, com seus cabelos verdes e profundos olhos castanhos, morava ali. Enquanto a lua banhava as águas e ela esperava por mais uma vítima de seus encantamentos, encontrou a garrafa e leu o bilhete. Foi tomada por um sentimento de impotência. A bela Maria nas mãos de um Coroné das profundezas infernais. Talvez ela pudesse ajudar. Malditos eram os homens.  
E foi desse jeito, numa conjunção astral estonteante, que o matuto Marimbondo apareceu nas margens do logo, para aliviar a sede de seu rebanho de cabras, bem na hora em que Iara lia o bilhete de Maria. Ele sabia que ao se deparar com os belos olhos castanhos da Iara, isso seria seu fim. Seria aprisionado e não poderia nem rezar pela própria alma. Tinha conhecimento das histórias que contavam a respeito dela. Em poucos minutos morreria de tanto prazer, diante de tanta beleza, que nem iria perceber quando Iara cravasse suas garras em seu corpo e o levasse para as profundezas do rio.
Menos mal uma morte cheia de prazer. Melhor do que morrer com a boca seca, vendo a terra rachar de tanto sol. Quem negaria a nobreza desse destino? A beleza da Iara valeria o encontro definitivo com a morte. Aqueles cabelos verdes profundos, os belos olhos castanhos, os seios fartos, a pele lisa e perfeita, a voz agradável e macia era o que Marimbondo havia visto de mais belo no mundo. Quem poderia dizer que não havia misericórdia nessa vida? Suas cabras ficariam ao léu, mas era assim mesmo o destino dos órfãos.
Mas quando estava nas mãos da Iara, flutuando nas águas, saboreando o entorpecimento da sedução fatal, se assustou por ela parar o feitiço de repente pra lhe dizer: “... você precisa subir o rio e salvar essa moça das garras do Belzebu!”. Em seguida mostrou o bilhete. Marimbondo não sabia ler; então ela explicou o caso. Ele se apequenou depois de ouvir do que se tratava. Como poderia enfrentar o Belzebu, ele, um pobre criador de cabras?
Melhor do que explicar, era agir. Iara extraiu poderes da lua e transformou Marimbondo num homem forte, com peito largo e voz grave. Deu-lhe o nome de Virgulino. Tirou do fundo das águas uma espada e um facão bem afiados e disse-lhe que tinha pouco tempo, e que fosse logo salvar Maria das garras daquele monstro. Mas antes Virgulino indagou: “ Você me transformou num homem forte, num herói. O que faz a senhora acreditar que não vou fugir pra outro canto e nunca mais vou voltar aqui e muito menos salvar essa tal Maria?”
Iara sorriu e o alertou: “Em sete dias você vai virar um bode e passar o resto da vida comendo capim. A não ser que você faça o que eu mandei você fazer e volte aqui pra eu desfazer o feitiço! Vai! Vai! Já tá perdendo muito tempo!”. E assim Virgulino se foi. Ou vencia Belzebu, ou seria transformado pra sempre num bode. Agora sim o destino lhe aplicara uma boa peça.
Iara ficou olhando aquele homem forte subir o riacho em direção à batalha. Também não sabia de onde tinha tirado o desejo de ajudar aquela pobre moça, já que não sentia pena de ninguém.

III

Virgulino

Virgulino subiu o rio e em menos de um dia e assim chegou ao reino do Coroné Negromonte. A cidade estava enfeitada com bandeirinhas; o povo vivia o preparatório do casamento. Maria permanecia em sua casa, cercada de beatas que lhe preparavam tudo e pareciam muito felizes; as crianças corriam pela rua; os homens bebiam no bar junto do Coroné, que esfregava as mãos em sinal de alegria ansiosa; logo teria sua mulher. Ele dizia aos homens, seus admiradores, que não ficaria somente com uma esposa, tinha calibre pra mais de três. E que com todas elas, sem exceção, iria se casar na igreja e com a cruz de cabeça pra baixo no altar, porque ele era senhor do mundo, não o tal de Jesus Cristo. Alguém mais corajoso o lembrou, em meio a conversa do bar, que a Igreja só permitia um casamento. Ele deu um murro no balcão e anunciou que o Papa teria de mudar essa lei. E todos concordaram.
Mas o assunto foi desviado. O ar ficou tenso. Um estranho silêncio veio das ruas pra dentro do bar.  Na entrada principal da cidade, no mesmo lugar onde o boi havia aparecido, um homem com espada e facão em mãos anunciava um desafio ao Coroné. Gritou com todos os pulmões e pra todo mundo ouvir: “... soube que aqui tem um boi chifrudo que tem fama de valente. Vim aqui pra arrancar o couro dele e colocar um lacinho cor-de-rosa na ponta do chifre. Cadê a besta?”.
Ao ouvir essas palavras, o Coroné bufou feito um demônio e saiu em disparada. Era uma mancha negra correndo em meio à poeira da rua. Foi outro corre-corre. De novo o cramunhão era um ser na forma de um boi. Quando chegou cara a cara com o desafiante Virgulino, olhou bem dentro dos olhos dele e o atacou sem misericórdia. O barulho da espada e do facão batendo nos chifres assustou o povo. Maria, sem saber o porquê, sentiu uma ponta de alegria no coração. E isso ocorreu antes mesmo de um menino entrar correndo em sua casa pra dizer que um estranho, que há pouco chegara à cidade, havia desafiado o Coroné prum duelo.  Todos na casa de Maria foram todos pra rua, em direção ao campo da batalha; ela de vestido de noiva e as beatas rezando pro Coroné!
Maria ainda teve tempo de ouvir o segundo berro de Virgulino: “ ... e o inferno te espera, cramunhão de uma figa!”. Feito um toureiro das longínquas terras andaluzas, Virgulino bailou diante da fera até que lhe cravou a espada na corcova e depois o facão no meio da cabeça, rasgando o osso do crânio e trespassando a ponta da lâmina no pescoço. O barulho da carne batendo no chão tremeu a alma dos moradores. Belzebu estava morto. Enquanto todo mundo chegava pra contemplar o corpo morto do boi, a molecada explicou a Virgulino quem havia tomado partido do coisa-ruim ao longo de seu reinado de terror. 
Era gritaria pra todo lado. Agora iria começar outra festa. Maria chorava de alegria. Mas antes que todo mundo usufruísse na nova situação, Virgulino berrou mais uma vez: “... e pelo o quê me contaram, é preciso que se faça justiça: as terras do Belzebu serão dividas igualmente pra todos!”. Virgulino ainda disse mais: “... o padre, que aceitou colocar a cruz de cabeça pra baixo, vai sumir daqui, senão corto as tripas dele!”. Em meio à comemoração da maioria, o padre saiu de fino. E Virgulino ainda finalizou: “Dos vereadores não quero ver fuça de nenhum, senão vamos ‘fuzilá’ a cambada na parede da igreja!”. O povo era um delírio só; vereadores sumiram.
Maria não teve tempo de agradecer ao herói que logo saiu da cidade, mas não antes de cortar os chifres do Belzebu para mostrar a Iara que tinha cumprido sua missão. Tinha uma viagem de retorno e não podia perder tempo. Dormiu uma hora embaixo de uma árvore, às margens do rio e depois de dois dias de viagem, chegou ao remanso da sereia carregando os chifres da besta. Iara olhou o que havia sobrado da fera e depois jogou pra longe, pra que os cães fizessem a farra. Depois olhou pro Virgulino e o dispensou: “Vá, antes que eu mude de ideia!”.
Mas Virgulino não pode se conter e lhe disse: “Você é a mulher mais linda que eu já vi. Quero me deitar com você, nem que isso custe minha vida!”. Iara sorriu e gostou da coragem do homem que ela havia criado. Sorriu plenamente e mostrou-se receptiva. Chegou mais perto dele e lhe beijou com o hálito mais puro que Virgulino já tinha sentido. Deitaram-se na areia às margens do rio. Era uma areia limpa e confortável. Enquanto ele teve forças, manteve o corpo da Iara colado ao seu e a beijava ardentemente enquanto ocorria o coito.
Quando não pode mais conter-se, derreteu-se de prazer. Seus olhos viram estrelas distantes, seu corpo sentiu o sol das manhãs primaveris e um gosto de mel tomou-lhe o paladar. Na hora em que voltou de novo a si, percebeu que estava no fundo do rio. A água transparente permitiu que ele visse a lua lá no alto do céu. Depois sentiu os dentes da sereia em seu ventre e a água ficou vermelha. Mas ele sorriu. Depois tudo ficou escuro sem fundo e veio um silêncio calado com gosto de morte. Depois mais nada.
As cabras, pobres órfãs, ficaram nas margens do rio olhando Iara nadar em plena felicidade. Ela tinha sangue na boca e agora só queria se deliciar com o luar e o frescor do rio.                                                       

domingo, 19 de julho de 2015

O fantasma da lata


O sol estava a pino e não havia vento algum. Uma lata velha de cerveja deslizou sozinha sobre a calçada e fez um tímido ruído. Um fantasma tropical age assim mesmo, no meio da luz despudorada do dia. Mas o fato dele ter desencadeado esse movimento na lata, provocou em mim uma tentativa de compreender os pensamentos que estão dentro de minha cabeça. São sistemas intracranianos de palavras e galáxias de metáforas que compõem o ser que sou. Quantas ilusões, mentiras, simulações, esquecimentos formam o epicentro do comando do Eu sobre mim mesmo? Eu não saberia dizer. Apenas sei que altero a realidade, dentro de minhas possibilidades, e isso me torna um ser concreto e real.
Claro, sofismas ocorrerem, preferencialmente, na linguagem, mas nos acalantam. Brotam de um espaço real do cérebro. Às vezes o que é lógico também só ocorre nos tramites dos conceitos subjetivos que exalam significados. Mas isso não impede que ninguém venha a alterar e/ou criar realidades. Quando a realidade não é alterada por nós, independentemente de sermos seres à base de silogismo e/ou sofismas?
A própria não-ação de Buda é um ação. Mesmo que eu venha a dizer que: ”...nada poderá mudar o mundo em que eu vivo, pois mergulho sempre em meditações”, de nada me adiantará esse não movimento se ainda estiver envolto em memórias e, diante delas, identificar coisas especiais habitando os vastos territórios virtuais do cérebro. Mergulhado numa suposta não-ação, olhando minhas memórias como se elas fossem um cenário de um filme, me encontro na ‘ação’ de um observador. Se eu for muito fenomenológico nesse ‘cinema de memórias’, Freud me explicará assim ou assado, como fruto de frustrações; se for niilista o suficiente para explodir os altares, Nietzsche me dirá que sou a corda que fluiu do macaco; se eu for frio e impassível o bastante para seguir em paz, serei um ser desprovido e desconectado do inconsciente coletivo, um sociopata, segundo psicanálise moderna. − Um sociopata está ligado a qual parte do inconsciente coletivo?
Estamos nos movendo em direção a um mundo desprovido de personalidades híbridas, enquanto aceitamos, passivamente, a produção em série de patologias digitais coletivas. Mas independentemente daquilo que somos, alteramos a realidade. Assim a filosofia e suas intenções de revelar algo lógico naquilo que nos cerca, é, na realidade, um molde, uma forma sofisticada de alinhamento de fluxos de pensamentos com algo ideal e nem sempre concreto.
Quero chegar num lugar pouco confortável: de fato, segundo a psiquiatria, conseguimos mudar o mundo, reformá-lo, revolucioná-lo, mesmo que seja com as parcas ilusões que cultivamos em nossa mente. Seja num bloco de sofismas, num maço de verdades lógicas, ou num agregado de metáforas, inexoravelmente, podemos alterar a realidade e assim seremos reais para todo sempre. Mas não estamos sozinhos nessa jornada: os alcaloides nos fazem aderir ao processo com terno e gravata; a cannabis sativa nos leva à contemplação das ruínas ocultas por detrás da decoração do mundo do consumo digital e das redes sociais; os antidepressivos nos acoplam ao discurso cristão retrô-auto-repressivo; o vinho nos leva à mitologia grega e às aventuras sexuais e a uma porção de tranquilidade o suficiente para ouvirmos um LP do Pink Floyd. – Continue brilhando, louco diamante.
As substâncias são nossas vozes, os heterônimos, o jardim no País das Maravilhas onde nossos lamentos sobem em direção à lua. Não podemos mentir. É facil de se entender que este é o pior dos destinos: o de sempre alterar a realidade. O pior castigo dos deuses sobre a raça humana é a impossibilidade de mentir sobre nossa ação sobre o mundo concreto. Criamos os seres que nos amaldiçoaram ao longo do tempo e que permanecem entre nós e o Céu despudorado das liberdades. Não podemos mentir sobre o agir! Quantas vezes diremos isso com a ideia de que um dia seja uma mentira libertadora? Deveras não podemos mentir sobre sempre sermos reais e alterarmos, constantemente, o mundo concreto ao nosso redor. Eis o motivo da arte, da religião e da filosofia agirem da mesma maneira e com o mesmo método; talvez sejam até a mesma coisa quando se convertem em negócios lucrativos muito rapidamente. Não há sofismas no mundo da ação! 
Esse é o segredo dos lunáticos que conseguiram se apoderar do mundo. Inegavelmente, eles vivem dentro de nós.                  

domingo, 12 de julho de 2015

Promos da banda: Mississippi Drake Blues

Mississippi Drake Blues: 
Dida Bruce: guitarra solo, vocais. 
Samuel Fernandes: baixo. 
Sávio Notarangeli: voz, violão aço   


Promo 1:  Another Blues
(é só mais um blues)

um dia minha mãe me disse
que todos choram nessa vida,
e quando fosse preciso pensar no amor perdido,
eu iria sentir a dor,
então veria o Blues.
eu iria entender sem a ajuda das palavras 
e inievitavelmente 
a estrada gritaria meu nome. 





Promo 2: All together in Hollywood
(quase uma canção roubada)

acima das montanhas e bem longe,
os deuses forjam o mundo com seu martelo
e  'pequeno homem' corre para a cama de sua mãe..

mas em meu sonhos todos podemos viver
em paz em hollywood
todos juntos agora, 
todos juntos



Em pleno ano de 1979, um pobre menino sonhava em jogar numa Copa do Mundo, ele corria atrás da bola com uma camisa do Brasil F.C. (clone da camisa do Galo e/ou Botafogo, junto com primos e amigos vizinhos).  
Outro sonho era o de um dia poder tocar numa banda de rock.  
As copas não o quiseram, (rs) mas o rock, guardadas as devidas proporções, se tornou uma amigo gentil que o fez 'amuderecer' e conhecer gente boa ao longo dessa vida. 
Entre eles: Dida Bruce e Samuel Fernandes. 
Vlw! Espero que gostem do som. 

           



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Circus Esquizofrenóide


"...como um rio que não conhece sua fonte,
nem sua foz, mas que 'cavuca' as margens
de terra por todos os lados". Deleuze


“Precisamos da arte para dar sentido às nossas vidas, pois nossa visão intelectual do mundo é superficial”. Com essa frase o bom e velho Nietzsche, como se fosse um mestre de cerimônias circense, ou tal como um psiquiatra que estudou Jung, buscou maneiras de aliviar a condição humana da apresentação de si mesma para os próprios olhos. Melhor que esses ‘despudoramentos’, esse striep-tease humano estético seja feito pela arte. Fossem feitos por outras esferas, a morte pela decepção seria uma catástrofe coletiva que nos levaria a uma catarse tétrica: todos mortos diante de todos nós mortos. Olhos opacos, sangue inerte, azêmulas binárias: republicanos ou democratas? E mais nada.  
É só através da arte que poderemos escapar da esquizofrenia do capitalismo. Giles Deleuze, a grosso modo, disse que a sociedade produz em massa a subjetividade que usamos para formar os ‘indivíduos’ que acreditamos ser. Padrões, dispositivos, referências históricas são avalanches de significados que brotam dos desejos da máquina de pensamento coletivo e que são degustados numa missa economicista, onde as hóstias são os significantes (palavras). Somos sempre agenciados, moldados pela subjetividade da coletividade. Esperneamos através da política e só podemos nos libertar pela arte. (em tese)
A sociedade econômica produz, freneticamente, um dos conjuntos de subjetividades que nos agencia em moto perpétuo. O chorume dessa subjetividade capitalista nos leva à uma paranoia, a uma esquizofrenia que tratamos com uma forte dose de um paliativo histórico: a árvore do pensamento filosófico tradicional. Tal árvore pode ser assim descrita: raiz = metafísica; tronco = física; o fruto e a copa = ética/moral. O poder estaria nas mãos daqueles que podem determinar o valor de Pi do fruto. Seus limites, suas dimensões, sua funcionabilidade, sua posse, etc.. - A imagem do pensamento humano não é uma árvore, mas sim um rizoma (raízes entrelaçadas no subsolo da Terra) em eterno cruzamento de linhas, perspectivas e links. 
Dessa forma, não há, não pode haver indivíduos nessa máquina que produz sujeitos (‘assujeitados’) em meio a um mar de subjetividades padronizadas. Só há o ‘ser’ ‘a-sujeitado’ que, num projeto-pedagógico-educacional-transversal-curricular-universal, é idealizado para um ‘devir’ em consonância com o estereótipo de cidadão-padrão que, com sua subjetividade molecular − cada um é uma molécula – assassina sem tréguas o indivíduo de seu DNA. Os parâmetros são frutos da esquizofrenia do capitalismo, que é fruto da subjetividade do pensamento humano, explicado, eis o paradoxo, por um pensamento racional humano desterritorializado: a árvore da filosofia tradicional.
Mas na arte podemos frear a esquizofrenia com a melancolia, com a depressão, com o sarcasmo, com a violência e até, às vezes, com o orgasmo da produção de uma obra. É a estética da beleza que nos leva aos ermos territórios dionisíacos, onde significados e significantes se emudecem e a música edifica-se com a própria vida. Mas há sempre o perigo que vem do Hades: a indústria cultural que multiplica o bálsamo Dionisíaco. Adorno não nos deixa esquecer por muito tempo a esquizofrenia subjetiva multiplicada pelo capitalismo e da máquina que se edifica por de trás do todo.
E no mais profundo dos fundos dos abismos precisamos nos inventar. Não pode haver outra maneira de sermos humanos, a não ser naquela em podemos nos inventar, sempre, sem a ditadura da subjetividade coletiva; sem o estrangulamento do desejo, que é o movimento próprio de cada um, em favor da busca do cidadão padrão reluzente na tela do mundo, o altar do deus esquizofrenia.
Procure respostas em Magritte. Terapias só podem levar você a uma consonância com a esquizofrenia que diz que todos nossos problemas, históricos e culturais, se resumem ao complexo de Édipo consumista.        

Magrittea impossível tentativa de pintar o corpo humano.
pois estamos condenados a nos inventar sempre,
 mesmo que abracemos a esquizofrenia da sociedade
em claro ato de má-fé. Mesmo ainda que sejamos, nós mesmos,
indivíduos livres, será uma invenção. 
Absurdo? Não, loucura racionalizada. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Seasick Steve

"... não se pode ensinar novos truques a cães velhos. Mas o californiano foi aprendendo, aprendendo.."

" Aos quatro anos de idade, Steve presenciou a separação de seus pais. Aos oito, aprendeu a tocar violão, sendo ensinado por K. C. Douglas, que trabalhava na garagem de seu avô. Para evitar os abusos de seu padrasto, fugiu de casa com 13 anos de idade, passando a viver perambulando pelas estradas do TennesseeMississippi e de outras localidades, à procura de emprego. Sobreviveu por meio de trabalhos temporários por um longo período.
Na década de 1960, começou a excursionar e tocar com músicos de blues. Passou a trabalhar como engenheiro de gravação e produtor. Na década de 1990, produziu alguns álbuns do grupo Modest Mouse, inclusive fazendo parte da banda de apoio. Mudou-se para Paris, onde apresentava-se sozinho nos metrôs da cidade".