quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Caeiro, quando voltaremos ao catolicismo?



Quando tiver se transformado, por definitivo, em escombros. E é assim que caminharemos sobre ele, no futuro, por suas ruínas, que então terá em si o charme da inocência. Será como passear por um museu de brinquedos que tivemos na infância. Bonecos, carrinhos, bolas, revólveres, peões, palhaços. Riremos de nós mesmos ao lembrarmo-nos que o som dos motores de nossos pequenos caminhões saia de nossas bocas. Era a mais pura verdade a encarnação daquele automotor que nunca se cansava; era assim, também, na mais pura ‘verdade’ da Igreja com suas histórias e missas: imaginação de criança.
Nessas ruínas de brinquedo talvez até cheguemos a sentir uma emoção, afinal acreditávamos em tudo aquilo, como se tudo aquilo fosse a verdade única e que ela ainda nos tornava seres especiais. Veremos os resquícios do maniqueísmo dos homens clericais por de trás das faces dos santos esculpidos em pedra e madeira. Os sons de nossos pés no granito ecoarão pela nave, a luz virá pelos vitrais, sim, associaremos o templo àquela casa na árvore que ficou esquecida no quintal da casa dos avós, há décadas e décadas.
O pobre Cristo, cabisbaixo, crucificado em sua sobrevida pós-moderna, respirando por aparelhos e presente somente nas bocas do conservadorismo mesquinho e estelionatário de padres, pastores e santidades mais, estará de olhos fechados, entregue à escuridão medieval da qual nasceu. Não poderemos fingir que não vemos o Papa Francisco como um fantasma restaurador de brinquedos inúteis, ávido em seus sonhos pelo retorno daquilo que a Igreja nunca foi: a casa de Deus e a morada inocência.
Os ouvidos mais apurados, e talvez com dons mediúnicos, irão perceber os gritos dos meninos estuprados pela pedofilia sacra, nas alcovas das sacristias, ecoando eternamente no tempo, que apesar de nunca parar, não nos deixa esquecer e menos ainda nos permite dar a outra face. Saberá ainda, aquele que souber ouvir, que essa dor vai do corpo à alma e permanece no espírito, e nem o maior dos hipócritas, que hoje ainda se ajoelha e reza e comunga, conseguirá deixar de ouvi-la.
Sim, nossa reminiscência terá momentos de náuseas porque nunca nos será possível esquecer os homens ‘sagrados’ que governaram aquilo que agora são escombros e ruínas. E que esses mesmos homens, no passado, queimaram pessoas, armazenaram fortunas, conviveram pacificamente com a miséria alheia e destruíram os sonhos de milhões e milhões de inocentes. Para sobreviver, a Igreja tem que ser despossuída de consciência. Sem consciência não há autocrítica. Sem autocrítica ela será sempre uma ruína. E segue, ad infinitum, esse ciclo vicioso. Amém.
Porém, do meio das ruínas o menino renasceu. E foi como no poema de Alberto Caeiro, em que numa tarde brilhante o menino Jesus o visitou em seu universo zen e lhe disse coisas que só se diz a um amigo e que se pudesse, proclamou o menino, viveria outra vez, mas sem os seguidores, sem os erros históricos que lhe transformaram num destruidor de sonhos e desejos. Queria viver na simplicidade. Sim, ele resurgiu ali, de novo, ante aos meus olhos, o Menino. Alucinação?  
Enfim, peguei-o pela mão e lhe disse que poderíamos ir embora. Havia ar puro no lado de fora, mas às portas das ruínas nos deparamos com Lutero e seus pastores malafaidos que ofereciam pedras de crack ao pobre menino e também um rifle americano, para que ele caçasse negros, gays, poetas, judeus e diferentes mais, em transe psicótico profundo. Abracei-o no peito e passei pelos filhos das trevas, mas no lado de fora ainda havia outro perigo.
Alá e Maomé nos esperavam com os corpos cobertos por dinamites, gesticulavam para que nós nos juntássemos a eles e que no céu, bem lá no alto, 11 mil virgens nos receberiam de braços abertos, bastava pra isso que explodíssemos inocentes em nome do único deus, Alá.
Conseguimos seguir em frente, o menino não era metafísico, agradeci ao destino por essa dádiva. Paramos num jardim e nos deitamos na grama, o sol batia em nossos ossos. Num estalo entendi que nossa vida deveria se resumir à respiração do ar puro, do sol sobre os ossos, da água clara para molhar os pés e dos braços da pessoa que se ama.
Então o menino me perguntou, “Será que um dia poderei amar alguém a ponto de dividir a vida com esse alguém?”. O menino era um deus que não podia amar outro alguém porque os homens lhe diziam que era pecado. Seu destino era viver pra sempre morto na cruz e ressuscitar para uma futura vingança contra os pecadores. Fora trancafiado numa fantasia. Dessa forma, amar alguém sobre todas as coisas era o que mais desejava ter, mas consistia na montanha mais difícil para ele escalar. Indiquei-lhe a grande cordilheira diante de nossos olhos. Ele então me confidenciou:
“Nunca me esqueci dos olhos da Samaritana, naquele dia, no poço!” Então subiu as montanhas, em busca do lugar de onde vinha a água pura.