terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Ordem

A Ordem é seguir em frente

A Ordem, serve antes de mais nada, para manter privilégios. Toda voz de comando precisa de seres não pensantes para obedecê-la. O controle da realidade depende de como aplicamos a Ordem na desordem. Alguns monges budistas dirão que aplicamos o caos à Ordem natural do mundo, que não precisa de nós, humanos, para que siga seu caminho.
Seja no sentido filosófico, musical ou na segurança pública, (entenda exército), a Ordem, por vezes, se camufla de uma suposta harmonia. Harmonia é quando partes diferentes, personalidades ímpares, encontram pontos de sinergia e consonância. Inevitavelmente, dessa forma, encontra-se a concordância. Muito diferente de algo planejado para que todos obedeçam a uma só voz.
Para se manter no trabalho, não saia da Ordem das ideias. Tenha apenas as de seu chefe como se fossem suas; poucos seres humanos têm inteligência o suficiente para entender que a razão, na maioria das vezes, está no cérebro alheio. Isso não é ser humilde, é ser primata. Seu chefe, por vezes, ainda não pensa como um primata, mas sim como uma água-viva, daquelas australianas. E lembre-se: você é o banhista que saiu da 'caixa' e entrou na água. Mantenha a Ordem na praia, não saia do quiosque.  
Enfim, desobedecer, por vezes, é sinal de inteligência. Mas se deve evitar o máximo que isso aconteça. Que dirá a aluna, Ana Júlia, 16 anos, discursando na Assembléia Legislativa do Paraná, aos deputados estaduais, onde deixou claro que, a Escola, é dos estudantes. E que todos aqueles deputados que, em campanhas eleitorais passadas, haviam invadido a TV e o rádio para pediram votos prometendo mais educação e saúde, ainda não tinham ido verificar com os próprios olhos o que é a atual ocupação das escolas públicas paranaenses. O quê pedem, o que desejam os jovens, o futuro da nação? Diante disso, claro, os deputados colocaram Ordem no recinto e desligaram o microfone da aluna. Ora, verdades têm hora pra aparecer: a escola pode até ser dos alunos, aprenderam os deputados naquele dia, mas a Assembleia, absurdo, não é assim tão do povo; e que Ana Julia entendesse isso naquele dia. Ordem no recinto, logo o microfone foi desligado.  
Haverá um dia que dirão, no Congresso Nacional, que uma lei que proíba a tudo aquilo que traga desordem será necessária. Por isso, nossas cidades se resumirão a shopping centers, presídios e prostíbulos modernos e seletivos. Todos organizados numa Ordem impecável e com convênios com as melhores empresas de cartões de crédito.  A mídia justificará a tudo isso como inevitável, pois se assim é nos EUA, logo deve ser no Brasil também.
Os maiores rebeldes contra a Ordem são os intestinos. Seja em farda, terno, batina, jaleco, ou em reuniões, palestras e/ou experiências, nada pode deter a individualidade de Delgado e Grosso. Muito mais que uma dupla sertaneja universitária que produz pérolas, são seres que trabalham, produzem, absorvem e descartam o lixo sem levar em conta o calendário gregoriano, o horário de verão e/ou as palestras de auto-ajuda daqueles que não conseguem praticar o que pregam. É que a Ordem é mais teórica do real; menos, claro, para Delgado e Grosso.
O humor, por exemplo, precisa da Ordem para ter sentido. Porém, no mundo que vivemos, a Ordem é composta por anomalias. Por isso aplaudimos aqueles que destroem o mundo; são aqueles que vivem dos Bancos, do sistema financeiro, da corrupção, nos exércitos, no Congresso, no jornalismo, na política e nos programas de entretenimento da TV. Não dá pra fazer humor sobre essa Ordem, somente tragédias.
Vivemos num tempo em que Palhaços de Circo precisam de ansiolíticos e terapia, onde governadores e deputados precisam de cadeia, pois roubam a merenda escolar de escolas públicas, onde deputados federais desejam que todos nós usemos armas e ainda façamos como eles: apologia ao estupro. Claro, muito além do absurdo literário de Kafka. Quem poderia dizer que chegaríamos a esse tipo de Ordem?
Prefiro 'Amor' à ordem e progresso. Prefiro Voltaire à canção nova, onde se pratica uma Ordem que diz: "doe seus dentes de ouro à instituição!". Prefiro Buda a Thor. Prefiro o silêncio às ordens inócuas dos cabeças de planilha. Prefiro pipas e bolinhas de gude aos drones do Paraguai. E assim vai. Mas se perguntarem como estou indo, digo-lhes: "Tudo em Ordem!".                           

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