domingo, 31 de dezembro de 2017

A estrela



Na noite densa e escura os homens precisam de luz, de algo que lhes dê sentido. Uma canção, um abraço, a lembrança de alguém que a vida achou melhor levar pra outros caminhos. Ao final de cada ano, o passado se comprime em nossas lembranças, o ciclo da vida aparece diante de nossos olhos. Ele é indiferente, mas nós não conseguimos deixar de senti-lo próximo, tal como se olhássemos no espelho e, por um momento, questionássemos o quê fazemos aqui, nessa Terra?
As Festas de fim de ano são noturnas, por isso tentamos iluminar os céus com nossos efêmeros fogos de artifício. Buscamos na embriaguez dos brindes um sentido metafísico, a frase perfeita, o abraço reconfortante. Procuramos a humanidade que perdemos diante das escolhas nada confortáveis, aquelas que nos tornaram seres menores ao longo do caminho. Mas são elas que  justificarão, hoje e amanhã, os supostos fins alcançados.
Nos negamos ao longo do tempo muito mais do que o fez Pedro, antes do galo cantar. A negação de Pedro está em todos nós, porque defendemos os poderosos com discursos de produtividade, dedicação e importância da obediência. Claro, é muito confortável confundir sujeição com respeito e responsabilidade. E mais fácil ainda mesclar trabalho com adulação aos sepulcros caiados na busca pela sobrevivência básica; pra engolir a auto-excrescência, ou fazemos terapias, ou tiramos selfs com os algozes da ética e babamos ovos de elogios a eles em redes sociais.
E se Pedro não tivesse negado a Cristo antes do galo cantar, mas sim o afirmado como referência e estrela guia de sua obra? Claro, Pedro iria anunciar que, a partir daquele instante, estaria iniciando sua guerra contra Roma, contra os poderosos, contra os vendilhões do templo, contra os 'caiafas' da vida e se juntaria à massa de pecadores excluídos. Tornar-se-ia a pedra da resistência física e real contra o mal que já corrompia a humanidade à época: dinheiro e poder.
Feliz Natal! Diz a coca-cola. Feliz Natal! Diz a Globo com sua musiquinha, "...hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou!...". Tempo este recheado por uma reforma da previdência indigna, pela criação de novas leis de Trabalho bárbaras e desumanas, por uma justiça corrupta e delirante que sustenta o pesadelo como se fosse razão.
Mas sim, a festa de Copacabana é a maior do mundo, podemos comemorar felizes; e em fevereiro, claro, tem carnaval; mas não há mais fuscas nem violões. Somente Pablo Vittar e MBL, ícones da caretice. Pior é aquele que se intitula Mito e pede que se compre armas em supermercados. Oh! Glória, atiraremos, no futuro, uns nos outros, enquanto desejamos um feliz Natal. Sim, é a apoteose do absurdo.
A solução que querem nos impor como se fosse uma livre escolha? Resposta: copiar os EUA em tudo, pois afinal temos um potencial inigualável para a idiotice. Deveras, não vejo nada novo surgir da contramão, tudo é Global. E tem mais: o velho herói do cinema quer mais guerras e quer construir muros; nos quer fora da Terra sagrada do consumo. Somos a escória, os imigrantes que adentram a terra prometida a poucos. E fazemos isso porque o venerável Tio Sam, o herói do cinema, destruiu a nossa terra com sua geopolítica, com a ganância que lhe é peculiar. E segue o fluxo. 
Ora, direis ouvires as estrelas do por vir de seus sonhos? Mas pra isso, precisamos de horizontes. Felicidades. FLZ 2018. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Apocalipse




Apocalipse é uma palavra que vem do grego e quer dizer revelação, ou o ato de despertar. Em nossa cultura judaico-cristã tornou-se sinônimo de um cataclismo, um colapso anunciado por um discurso obscuro sobre o fim dos tempos e que se personificará com a destruição de tudo o que conhecemos no mundo tal como ele é. Apocalipse é também o nome do último livro da Bíblia, escrito por João, no Novo Testamento, e que por meio de uma linguagem subjetiva descreve a estética do fim da vida na Terra.
Creio que tal evento, se ocorrer, será exclusivamente em nossas mentes, no intra-humano, no intra-crânio, na maneira como entendemos o mundo e sobretudo no valor dos outros humanos e animais para nossas vidas; seria o fim do senso comum cooperativo. Em outros termos, quando tal cooperação desaparecer por completo da face da Terra, a mente individual encontrará um ambiente tão angustiante quanto solitário, ante ao peso de um universo indiferente à nossa História. Seremos julgados por uma natureza que não sabe o que é o bem ou o mal, mas que seguirá seu fluxo sem se preocupar com quem estiver vivo em seu seio. Sim, a natureza continuará sem nós se continuarmos a achar que podemos viver sem ela.
O primeiro sintoma do Apocalipse ocorreu no final do século XIX, quando a humanidade se entendeu como moderna e sonhou, delirou e acreditou que poderia viver uma vida desvinculada da força natural que a trouxera até aquele presente momento. Máquinas, protocolos e inteligência, a todo vapor, na busca por excesso e desperdício.
A mola propulsora do sistema passou a ser  a insanidade. E as camadas de subjetividades extraídas da loucura da vida moderna tornaram-se conhecimento. Justificá-lo com teorias de gestão e marketing , num seqüestro constante da ética e da moral para um espaço-tempo repleto de urgências, ansiedades e patologias disfarçadas por uma infinidade de planilhas, passou a ser o sentido da vida. O essencial do ser, nas sociedades modernas, deveras, passou a basear-se no descartável alcançado pelo excesso de uma produção continuamente revigorada por si mesma, a qual nosso livre arbítrio e escolhas são ineficazes e imperceptíveis. Aceitar a perda da liberdade como sinônimo dessa mesma 'liberdade' foi nosso primeiro pecado 'civilizatório'.
Pobre daquele que pensa que o Apocalipse virá em função das escolhas sexuais dos habitantes da Terra, ou sobre os prazeres ínfimos dos prisioneiros da urbanidade, dos submissos ante as decisões dos donos do Capital com suas profundas manipulações pelos meios de comunicação e pelo mundo acadêmico. O Apocalipse será a solidão alimentada por um esperança de um futuro melhor numa terra desolada e devastada pelo pensamento único, somado à omissão. Nos tornamos intolerantes para com as escolhas sexuais alheias e tolerantes para com a corrupção, a violência (fardada e/ou civil) e mais a extinção da natureza.  
Mas alguns anjos já estiveram entre nós, só que não os ouvimos. Manoel de Barros pediu, em sua obra, para que nos conectássemos com a beleza do ínfimo, das coisas singelas. Henry Thoreau disse que, se ficássemos sentados observando a um bosque, nos chamariam de vagabundos; já se cortássemos as árvores e depois fizéssemos um muro ao redor da desolação desarborizada, diriam que somos empreendedores.
A auto-infidelidade que praticamos é nossa rota para sentimentos depressivos e agonizantes, eis o Apocalipse. Sonhamos com muros que separem pessoas com base no poder de consumo; desejamos que drones exterminem as periferias; que pinturas sejam proibidos em museus; que pensar no outro e praticar a alteridade sejam coisas arcaicas e que devem, sistematicamente, ser esquecidas. Dar-se-á o fim, quando inteligência e consciência divorciarem-se definitivamente.

O absurdo



O sentido da vida, pra mim, está no desejo de vencer o absurdo que ronda nossa existência desde sempre. A vida, claro, nos sugere ser desprovida de razão, pois a morte não permite que edifiquemos nada que vá além do pó. Mas mesmo assim, nos intoxicamos com 'certezas' e somos cada vez mais altivos com nossas vãs teorias. Seres feitos do barro, com armaduras confeccionadas pela vaidade, estruturas à base de sepulcros caiados e, sem nenhum grafite pra ilustrar uma boa mensagem, somos resumidos, atualmente, por selfs vazias que são desconectadas de nosso processo histórico; um dos campos do conhecimento que pode nos dar um mínimo de consciência necessária ante ao processo evolutivo.  
É com base nisso que me preocupo com essa onda de conservadorismo/intolerância que assola o país e o mundo. O senso comum é como os carburadores dos carros mais antigos, vez ou outra precisa de uma limpeza. De onde virá tal faxina? Talvez da arte, da liberdade sexual, da política, ou da consciência ambiental que está demorando um pouco além da conta pra se tornar parte inegável de nosso mundo. Detalhe: jamais a renovação virá da intolerância.
Vivemos tempos em que nossa classe média anda a produzir massa fecal com a mente, uma inversão fisiológica que muitos dirão ser cíclica. Outros dirão que nada mais é do que uma falta de pudor elevada à enésima potência e que causa esse 'natural' afastamento da inteligência social. É óbvio que os intolerantes dessa classe social não se preocupam com a literatura, com o cinema e nem com o teatro, mas fazem protestos nas portas de museus exigindo proibições sobre assuntos que desconhecem. E isso, lamentável, virou moda no Brasil.     
Ainda tem mais: na busca pelo aumento do poder de consumo, essa mesma classe média passou a expressar ‘pérolas’ racistas, preconceito sexual, conceitos de extermínio e falso moralismo em anexo a um discurso supostamente sofisticado de redução do Estado e abandono dos pobres e miseráveis a si mesmos. Tudo isso em prol de algo que chamam de meritocracia; como se isso pudesse torná-la mais abastada da noite pro dia.
'Em suma', o sentido da vida vai muito além do ‘direito’ de ser um racista, um misógino, um elitista, um conservador retrógrado que prega a pena de morte e a aquisição de armas de fogo como ingredientes necessários para o funcionamento de uma ‘sociedade de consumo ordeira’. Sabemos que o consumismo vive do excesso e do desperdício, e que isso não nos levará ao paraíso ou ao auge da evolução. Pelo contrário, eis a patologia. A classe média está com lúpus e ataca partes de si mesma como se fossem demônios, tudo em busca do ‘direito’ de comprar bugigangas. 
Sim, o suicídio, a criação de bodes expiatórios e as aspirações consumistas são formas de se praticar o Absurdo. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Liberdade: entre Crusoé e Heráclito



Algo que se assemelha à liberdade há de surgir quando pudermos controlar, ou esquecer, as forças motrizes que nos cercam, que até nos dão sentido antropológico, mas ao mesmo tempo nos escravizaram ao longo da História: o Capital, o Estado, Deus, a Ciência e até mesmo se pode arriscar uma citação de nosso aprisionamento aos aspectos os culturais. São identidades que nos trancafiam em conceitos por meio da subjetividade exigida pelos lastros dos mesmos com a realidade. Achar o Ser em meio a tantos conceitos exalados por uma longa ação histórica, em constante processo de auto-refutação, se torna algo dantesco; podemos dizermo-nos, sem medo, como criaturas sísificas. - Talvez controlar as forças motrizes venha a ser algo igual a esquecê-las.
Vivemos, ao longo do tempo, com a ideia de que o Ser brotaria vívido e evoluído após séculos de labuta dos fornos da dialética, em exaustivas tarefas de forjamento do homem-verdade-ser-livre em definitivo. Algo que fosse intenso em si mesmo e soberano sobre protocolos e sistemas. Mas parece que não há ser que o possa 'sê-lo' fora dos aspectos fenomenológicos. Sem história, razão e fenomenologia, não existimos. Os sistemas seriam experiências acumuladas e ratificadas pela razão que emana continuamente do processo histórico.
Heráclito sobrepôs a física à ontologia quando afirmou que não se pode atravessar a mesma água de um rio duas vezes. Inserido o tempo, mais nossa dependência e submissão a ele, somos induzidos a pensar, por meio do conceito de Heráclito que, além de perecíveis, somos prescindíveis quanto à questão do criação, estruturação e manutenção do ser e que não podemos, apesar do livre arbítrio, escolher, manter e refutar 'o ser em si', no decorrer de (sua) história.
A fenomenologia alimenta a impressão que temos do mundo. São essas impressões que nos formam, nos dão nossa consciência, além da maneira como vamos seguir em frente, na relação pessoal com outros seres e como próprio sentido do mundo.
Robson Crusoé, clássico da literatura de Daniel Defoe, após sobreviver a um naufrágio, necessita reconstruir sua vida, seu ser, a partir dos escombros do navio que flutuam nas águas litorâneas da ilha onde se encontra só e desconectado da civilização, mas não de si mesmo. Além dos objetos e suas funções e significados, Crusoé mergulha na memória, no seu sentido e na racionalidade para (re)construir um mundo habitável. O pobre náufrago não tem escolha, senão desobedecer a Heráclito e atravessar, por meio da memória e por várias vezes, as mesmas águas do rio de seu tempo de existência pessoal e civilizatório para continuar em frente, ou simplesmente não morrer.
Dessa forma, os sistemas, as forças motrizes, impõem sua estrutura ao ser que, ao agir por meio delas, há de crer em si mesmo como algo livre e autêntico e senhor das escolhas binárias que hão de determinar a morfologia do espaço geográfico. O espaço que se cria constantemente por meio da teoria exalada pela força atual do capital. - No Egito antigo criava-se cidades e monumentos em nome da religiosidade, da vida eterna do Faraó; Brasília foi construída para servir a política, a independência dos poderes.
Robson Crusoé tenta recriar seu mundo, seus valores, para que isso lhe possibilite, quase que como um prêmio de consolação, a conversar consigo mesmo em meio ao abandono e à solidão em que se encontra; isso lhe dá um parco sentido à vida de náufrago em que se encontra.  Ele não esquece da metafísica, nem os hábitos civilizatórios que o identificam como tal. Sua memória, sua consciência, sua vontade, não se cansam de buscar nas águas do passado de sua vida, e também da própria sociedade que habitava, aquilo que ele deve ser naquele momento. Deveras, mesmo solitário, Crusoé não é livre.
A existência, para que possa ser livre, dessa forma, deve se afastar da fenomenologia da existência que paira no passado, e precisará ter ares de esquecimento e desconexão para ser possível o início de algo levemente esboçado numa concretude de liberdade. Um abandono do processo dialético que, supostamente, se embasa numa racionalidade inquestionável e que se reflete na história, torna-se necessário para se começar algo livre, inclusive da própria consciência. Num neologismo, necessita-se bem mais que a negação da dialética, precisamos criar a 'desconexolética'. Além do esquecimento, da capacidade de esquecer quantas vezes for necessário para o bem estar do ser que anseia a liberdade.                                      

                       

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O rei, o liberal e o pensador


Do que se pode lembrar, era uma vez num reino distante. O rei havia se declarado proprietário único e inequívoco das terras e dos animais que habitavam os bosques e as florestas. Assim, ninguém poderia caçar e/ou plantar para se alimentar, salvo fosse para dar a maior parte para o rei e sua corte. Gente que nunca trabalhou, mas que se dizia dona de tudo e isso era em nome de Deus, aquele que justificava a organização do mundo como tal; não havia injustiça no mundo, mas sim a vontade de Deus. – Deveras, o povo passava fome.
Com o passar do tempo, surgiu um homem que desafiou a organização do mundo. Como era um caçador capaz de capturar os animais de grande porte com facilidade, batia no peito e berrava nas tavernas que o mundo deveria ser daqueles que fossem capazes de domá-lo. A eficiência da técnica de caçar, plantar e pescar é que deveriam ser critérios para que as pessoas fossem donas de terras e animais, não um rei supostamente autorizado por um deus.
Essas novas idéias se espalharam com o tempo. O rei deixou de existir e quem passou a dar ordens foram os homens que se intitulavam liberais, que ainda escolherem representantes para apoiar e justificar suas idéias a respeito de como o mundo deveria funcionar. Agora não mais pela vontade de Deus, mas sim por meio das ações dos mais eficientes sobre a Terra. Aqueles que fossem mais especialistas na caça e no plantio seriam as novas referências sobre o local do poder.
Dessa forma, o que parecia ser um avanço, era, na realidade, uma outra forma de controle e de subjugação da maioria por um minoria exclusivista. O pensamento do Liberal havia vencido o rei, mas em contrapartida, havia impossibilitado o surgimento de uma variedade de habilidades humanas, no que dizia respeito a ser e existir e viver, selecionando e permitindo somente pessoas que tivessem as mesmas habilidades de sobrevivência do Liberal inicial, para ocuparem a base da pirâmide social. Existir era um processo contínuo de micro-amputações de habilidades e desejos em prol de uma eficiência única, que deveria manter-se em contínuo funcionamento para a glória exclusiva dos lucros dos homens que haviam se apossado das terras e dos animais. - Deveras, o povo ainda passava por privações e não era feliz.
O tempo, como senhor da razão, tornou as idéias dos liberais velhas e anacrônicas. Para se manter no poder os liberais usavam a força armada e criaram instituições para reproduzirem seus jargões sobre a realidade, os termos que deveriam se constituir na matéria prima do senso comum, que dessa forma propagaria, aos quatro ventos, que a vida era assim e desde que o mundo era mundo. Era a formatação de um modelo que permitia os privilégios de alguns poucos sobre a maneira de pensar a História da espécie humana, um ‘arbítrio irracional’ se impondo à História universal como se fosse algo inquestionável, uma racionalidade última e definitiva.
Os liberais nunca se importaram com o fato de que manteriam o poder de maneira decadente. Isso nunca os incomodou. Mas sabemos que não se pode controlar o espírito humano. E em meio às multidões dos reinos dos homens serviçais dos liberais, começaram a surgir pensadores. Homens que usavam a lógica e razão para subverterem o universo criado pelos ditos liberais.
Na mesma taverna onde antes o especialista em caça fizera sua aparição, um homem de barbas vermelhas dizia a todos que a natureza não era uma máquina que poderia ser apropriada, nem por reis e nem de liberais, mas sim um organismo vivo que produzia pela biodiversidade. Se todos criassem animais em terras coletivas e também permitissem e estimulassem a produção agrícola diversificada, em comunhão com animais e plantas e outros seres humanos, todos teriam tempo para viver, in loco, as possibilidades do verbo ser. E não mais a cópia barata e constate de posturas de ações teorizadas e espalhadas pelo mundo por meio de palestras de gestão e de uma imprensa de braços dados como os simulacros do marketing liberal.
Os pensadores criaram espaços dissidentes dentro das linhas do pensamento ortodoxo liberal e passaram a ser 'cassados' por isso. Revelaram que muitas verdades eram apenas dogmas, ilusões que permitiam o controle das massas, compostas por indivíduos que pensavam de maneira igual e que viviam com medo de algo que nem sabiam o que era. Por isso evitavam pensar no trabalho como algo que lhes desse identidade social e cultural, ao mesmo tempo em que os envolveria, de novo, com o meio ambiente do qual haviam nascido. Somente a eficácia do lucro deveria ser discutida, para que o mundo pudesse ser, em paz, para sempre, 'neo-liberal’.         

                   

                                           
    


quarta-feira, 29 de março de 2017

Sobre as meias e a maneira de pensar



As meias separam a pele dos pés da aspereza dos calçados, sejam eles sintéticos ou de couro. Para enfrentarmos o mundo, e suas engrenagens, usamos as mesmas meias dos jogadores de basquete da América do norte. São de algodão, têm elástico, podem ser brancas, coloridas e/ou com faixas. Elas aquecem os pés em dias outonais e invernais. - Os homens de negócio que usam terno preferem as meias de poliéster.
Bem, sempre fui criticado em minha família por usar meias ao avesso. Já as mulheres que me viram só de meia, nunca prestaram a atenção nisso. Há algo mais para se ver na nudez exposta na escuridão das alcovas do que a maneira de como se usa as meias. Mas voltando ao tom familiar, 'vestir' meias ao avesso pode ser um sintoma de desleixo e indisciplina. Essa foi a sentença que recebi de meus ancestrais. Do mesmo jeito que não se lia um livro de trás pra frente, ou se entrava num cinema depois do início de um filme, diziam, também, meus familiares, que não se vestia um par de meias pelo avesso. Talvez, quem sabe, numa canção de Caetano Veloso, mas não na vida real, não.
Várias vezes tentei explicar que, para a pele humana, era muito mais confortável que aquela costura toda, feita por máquinas, ficasse em contato com o calçado e que a simetria do lado externo das meias suavizava a vida dos pés e tornozelos. Era uma bela maneira de se evitar coceiras e incômodos, como os causados por aqueles gomos costurados que ficavam entre os dedos dos pés por horas e horas.
Mas o conservadorismo tende a se assustar com pequenas liberdades tomadas por sujeitos insignificantes. Usar um par de meias ao avesso pode subverter as ordem das coisas do mundo e minimizar alguns valores morais tão caros à sociedade e a seu funcionamento hierárquico. Exemplo: um soldado raso é só uma 'coisa' que deve usar as meias do lado certo e não um ser humano que pode optar pelo conforto da pele dos pés.
Se trocarmos o objeto da análise, as meias, pelo amor, veremos que o efeito pode ser quase o mesmo. O amor é como um casaco de pele que vestimos com deferência e orgulho. Talvez seja aquilo que mais nos torne humanos e insuportáveis. Afinal, é uma peça confeccionada pelo tragicômico e inconseqüente espírito de Eros. E diga-se de passagem, por dentro é revestido de espinhos e por fora é liso como a pele de um bebê foca; desses bem branquinhos. Vesti-lo ao avesso o transforma numa arma de sobrevivência, numa armadura capaz de deitar ao chão os espíritos que habitam nossas ilusões e sempre vêm nos prometer o paraíso.
Claro, podemos habitar o avesso de várias vestimentas e trajes. Como no smoking da conversação, por exemplo, um traje que é revestido de silêncio. E ao vesti-lo nos seus contrários, nos livramos da mediocridade dos debates acadêmicos, do discurso idiotizado dos admiradores do Dória-MBL-gestão-padrão-fascista e ignorâncias mais. Adquirimos, assim, a saborosa proteção do silêncio e da invisibilidade; além da possibilidade da fuga permanente da chatice, da monotonia e da falsa educação de salão que nos obriga a saudações e convenções proclamadas pelo status quo. - E também dos imbecis em qualquer situação e/ou idioma.
Talvez por isso se diga, no senso comum, que ao se vestir uma camisa ao avesso, isso corresponderia a um medo (in)consciente de fugir de um provável ataque de um 'cachorro louco'. Dessa forma, se o avesso de tal peça de vestimenta é um amuleto para espantar a loucura de alguns que desejam tomar satisfações sobre a vida que não lhes diz respeito, há pouca gente de camisa ao avesso em função do enorme número de lunáticos à solta. Não sei ao certo o tamanho do diâmetro da proteção de tal amuleto, mas o fato é que, se espanta cachorros e homens loucos, há de ter o mesmo efeito da canja de galinha: se não faz mal, melhor prevenir do que remediar.
Em suma, melhor ofertar o avesso ao público e proteger o lado humano, senão é o pobre homem sincero e humilde quem acaba transfigurado em obsolescência programada e antes mesmo de aprender a dizer, não! Afinal, o inferno são o outros!                                                 

     

segunda-feira, 13 de março de 2017

Diálogo sobre a honestidade de um juiz

Sócrates se encontra com Coxístenes na praça de Atenas
Coxístenes: Caro Sócrates, te encontro num dos grandes momentos de nossa história! A Justiça, podemos dizer, se personifica. Ela vive e fará nosso futuro melhor.
Sócrates: Sua empolgação me alegra, porque sei que isso é fruto de um sentimento cívico que anseia pela ética, caro Coxístenes. Que os deuses o abençoem.
Coxístenes: E não poderia ser de outra forma, caro Sócrates. Moroclídes, nosso juiz, anda a conduzir com maestria processos contra forças políticas populares acusadas de corrupção. Forças políticas que já nos governaram. É o tempo do advento profetizado pelos oráculos.
Sócrates: Que assim seja, Coxístenes. Mas se me permite um questionamento, pois se não o fizer não seria eu o Sócrates, a mosca, que todos já conhecem. E eis a questão: bem, ando a perceber que até alguns poderosos políticos têm aplaudido tal juiz. De certa forma, isso me causa estranheza, e até mesmo preocupação, pois o poder em nossa sociedade se alcança, digamos, nem sempre de uma maneira justa. Porém, logo se torna privilégio. Em termos públicos, onde há privilégio político há injustiça. Ou estarei errado, caro entusiasta cívico, ao dizer que um grande número de homens injustos se regozija com a ação desse juiz?
Coxístenes: Não, Sócrates, parece que não. A bem da verdade, nem tinha pensado nisso.
Sócrates: Então, aprofundemos: além dos poderosos políticos que estão a aplaudir o ‘incauto’ juiz, estão também os poderosos das empresas de informação. Acho que concordaria comigo se eu te lembrasse que tais empresas estão longe de um comportamento moral adequado e agem muito mais por interesses econômicos próprios do que pelo bem da ética.
Coxístenes: Iluminado Sócrates, ainda não tinha observado a qualidade moral do salão que anda a aplaudir esse divino juiz! Isso é grave!
Sócrates: Exato. Entre os réus de tão nobre juiz, está Péricles, homem que lutou contra os poderosos ao distribuir terras, reduziu o poder da aristocracia com o voto popular nas assembléias populares, abriu universidades e programas sociais que reduziram a fome e a miséria. Claro, como homem comum, não está acima dessa mesma lei votada nas assembléias. Mas me parece, muito mais por ‘falta de atenção’ do que por uma ‘abjeta intenção política de nosso juiz’, que nosso sistema jurídico age, nesse momento, com exclusiva intenção de penalizar Péricles. Não como cidadão, mas como força política. Assim sendo, pergunto: seria esse o motivo de endeusamento do juiz pelos inimigos políticos de Péricles?
Coxístenes: Agora me sinto confuso. Não sei mais se ainda sei o que é a Justiça!
Sócrates: Sim, também sinto o mesmo. Mas sei que é extremamente injusto determinar que a única possibilidade de se existir, como indivíduo, seja aquela que possibilita o contínuo enriquecimento dos poderosos. O próprio ser no mundo não é o suficiente para se criar uma política de bem estar social. Muito mais que homens corruptos, um sistema injusto é a própria corrupção personificada pelo desmanche do Estado em prol dos negócios que passam a ser feitos de forma privada, onde antes havia atendimento público social.
Coxístenes: Sócrates, será que a História nos perdoará?
Sócrates: Não sei, a História parece ter sido proibida. Mas entendo que fazer justiça não é destruir a capacidade de um cidadão de fazer política. Não estão desejando apenas a prisão de Péricles, mas a destruição de suas idéias que passaram a ser, também, sinônimo de uma política de Estado de bem estar social. Basta ver a reforma da previdência proposta pelos poderosos que dirigem o governo atual. Confirmada, será uma das mais injustas do mundo.
Coxístenes: E começamos essa discussão com base na suposta imparcialidade de um juiz que nos levaria à Justiça. Precisamos avisar aos jornais que tal injustiça ocorre em nossa cidade. Ó Sócrates, eles irão nos ouvir a tempo de corrigirmos essa injustiça?
Sócrates: Às vezes a esperança se confunde com a omissão. E assim afundamos ainda mais nas trevas das Cavernas. Mas vá, Coxístenes, só você pode arrumar aquilo que estragou. Adeus amigo, e que os deuses tenham piedade de ti.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O 'Chullachaqui'


É um espírito vazio de si mesmo que se tornou uma imagem fantasmagórica que vaga pelas florestas equatoriais sul-americanas, perdido num tempo sem tempo, num espaço imemorial do futuro/passado pré-cosmogônico, onde tudo ainda não começou ou já foi destruído. E deveras reina o caos. É assim que os índios no alto rio Amazonas interpretam a fotografia.
Mais isso é muito mais do que uma simples análise dos efeitos do daguerreótipo na racionalidade mitológica indígena sobre as estranhas mágicas praticadas pelos homens brancos e seus souvenires tecnológicos. - Na Amazônia peruana, Chullachaqui é um espírito que aparece para os solitários que se perdem na floresta, ele tem um pé diferente, um pé de cabra, e ilude sua vítima a ponto de fazê-la desaparecer em espaços vazios do mundo.
Nossa sociedade modernizada também produz os seus "chullachaquis" através das infinitas fotografias produzidas pelas câmeras dos celulares, daguerreótipos digitais, postados a exaustão nas redes sociais. Imagens vazias, legendadas por frases que vão desaparecendo lentamente até que mergulharão na ausência total de significado. Fantasmas e mais fantasmas multiplicando-se num mundo com uma profunda ausência de palavras. - Seria esse o sonho de Wittengeistein: um lugar onde as várias camadas de subjetividades que envolvem as palavras são dissolvidas por Chullachaquis, só restando, por fim, imagens, denotações multicores de fantasmas expostos e apresentados por sinais polidos a exaustão a ponto de tornaram-se placas/esculturas/palavras?
Em tempos de evolução da tecnologia e da bio-química, a longevidade tem se tornado uma característica marcante dessa sociedade digital, onde o corpo vem vencendo o tempo. Porém o cérebro parece não conseguir acompanhar esse 'puxadinho' de vida 'biológica'. É a dança de milhões e milhões de pessoas com Alzheimer e outras doenças mentais que nos transformam em Chullachaquis modernos. No auge da doença, sobra apenas uma imagem de alguém que já existiu e que perde, lentamente, o passado e se despede do futuro. Em pouco tempo já não sabe mais quem é e nem o que deve fazer. Só restam a imagem, o silêncio e o caos mental. As palavras se tornam grunhidos. Não há esperanças ou uma subjetividade mínima que possam consolar o que se falta a 'viver' nesse puxadinho possibilitado pela bio-química.
Alguns mais aficionados pelo mundo da mitologia dirão que os Chullachaquis resgatam as pessoas de seus mundos pasteurizados e acromáticos, salvando-os de uma destruição  causada pela insignificância e os apresenta à chacrona, planta alucinógena usada em chás amazônicos. Ao bebê-la, dissolvida no chá, o solitário se projeta em alucinações no interior da metafísica indígena que dá sentido à vida. Por isso esses mitos 'tricksters', (traiçoeiros), preferem os corações abandonados que até já pensaram em vender a própria alma aos infernos, em troca de alguma dose de hedonismo pulsante nesse mundo 'concreto' que se 'liquefaz' dia após dia. - Se Immanuel Kant criou a Crítica da razão Pura, os xamãs amazônicos criaram a Análise do Padrão Psicodélico Puro, pois a divindade que habita o princípio ativo da chacrona, em tese, criaria alucinações padronizadas. Ao decodificá-las e entendê-las encontraríamos o sentido da vida.
O Coiote, Macunaíma, Loki, Chullachaqui, entre outros, são tricksters, espíritos traiçoeiros que nos ajudam a evoluir espiritualmente enquanto também evoluem porque nascem sem caráter, mas com uma propensão gigantesca às traquinagens e molecagens. Isso se dá, grifo nosso, em função de uma ausência de uma consciência histórica linear. Esses seres não contam o tempo de forma binária e em somatória acumulativa escatológica. - Estar sempre no mesmo espaço natural, a floresta, contando o tempo através das luas, torna o índio amazônico o campo da batalha entre o bem e mal desprovido de parâmetros, paradigmas, axiomas e caracteres racionais históricos; eis o puro feeling em ação.  
Afinal, cada animal é um aspecto da alma humana que vagueia pela Terra e ao defrontar-se consigo mesmo, a todo instante, na busca pela essência das coisas, não pode a alma ser encontrada em algo mediado por uma moral positivada pela razão de um tempo histórico tradiconal. O relativismo latitudinário ilimitado da psicodelia advinda da chacrona torna-se a única chave de abertura para um mundo que não é um mundo, um sentido que não é um sentido, mas que fará dos seres da florestas algo mais puro e benéfico ao próprio universo, pois afinal  dissolver-se-ão no âmago insondável da irracionalidade e quem sabe, da felicidade. Assim é, assim seja.
Mazel Tov.