segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O corpo (physycal graffiti)

vitruviano, de da Vinci

O corpo sempre foi um problema mal resolvido pelo senso comum. Nossos olhares 'espiritualizados' criaram conceitos abstratos sobre nós mesmos, sobre o que devemos fazer com a própria vida (corpo) e também o que não devemos fazer, além de sentirmo-nos no direito de opinar e/ou escolher pelo outro. O fato é que criamos uma moral corporal num espaço metafísico, palavra que vem do grego e quer dizer, além do físico. Evidente, tal ação constitui-se em algo, no mínimo, contraditório; quiça paradoxal.
Na Idade Média, a beleza do corpo com sua simetria e harmonia, que o faziam atrativo ao próximo, ao desejo do outro, tornou-se símbolo do pecado. O mal se manifestava, segundo a visão medieval, pela beleza, associada à vaidade e ambas desaguavam no jogo da sedução sexual, o reino perverso praticado pela carne na busca por prazer. - Lúcifer era o mais belo dos anjos; e seria também a mais bela das mulheres e/ou o mais belo dos homens; ou um jovem extremamente apaixonante, que pela corrupção dos prazeres da carne, se alimentava das almas humanas que se entregavam a essas delícias.
A salvação, de acordo com a teologia medieval, passava pela destruição dessa beleza pecaminosa e, se possível, por meio do sofrimento. Cabelos mal cortados, bocas sem dentes, roupas velhas, corpos que nunca tomavam banho e nem sequer podiam sonhar com o embelezamento estético, eram a garantia de uma passagem para o paraíso do deus cristão.
Essa visão sobre o corpo, junto a um amontoado de outras concepções sobre o mundo, inclusive de que a Terra era plana, deu à Idade Média o título de Idade das Trevas, pois foram mil anos de um controle rígido sobre o corpo e o pensamento, capitaneado pela Igreja Católica. O que importava era a alma, e a melhor maneira de tratá-la era por meio do sofrimento infringido ao corpo, o auto-flagelo e mais a obediência à Igreja. Havia uma base platônica em tal sistema de valores, uma racionalidade questionável.
Já os valores da antiguidade, período histórico anterior ao medieval, eram não só diferentes, mas muito mais avançados, esteticamente falando. Os gregos, por exemplo, usavam a arte para idealizar o corpo humano com algo perfeito, equilibrado, atraente e sedutor. Não à toa, os deuses gregos, por várias vezes, ao longo de sua Mitologia, se enamoravam de belas mortais e com elas tinhas filhos, os chamados semideuses.
Na Renascença, período posterior à Idade Média, havia uma mudança conceitual a respeito do sentido do mundo e do corpo. Esteticamente falando, a figura humana passou a substituir Deus e os santos nas obras de arte. O teocentrismo foi sendo superado lentamente pelo antropocentrismo; oficialmente isso se iniciou no Auto do monólogo do vaqueiro, de Gil Vicente. O protagonista de tal Auto era um vaqueiro, um homem de carne e osso, e não mais o menino Jesus, como sempre ocorria nos Autos de natal.   
Michelângelo, talvez o próprio Renascimento em pessoa, definiu a face de Deus nos afrescos da Capela Sistina, um homem velho de barbas brancas, nesse mesmo Renascimento, em 1508, onde o corpo humano se tornou, de novo, tal como na era na antiguidade grega, a base para desenvolvimento da expressão da Criação e do desenrolar da história. Afinal, o corpo humano era (é) a imagem de Deus e portanto a obra de arte mais importante, já que era divina. Essa era parte da mensagem de Michelângelo e do próprio antropocentrismo. Isso possibilitou a santificação do nu, do corpo humano e daquilo que ele sentia: amor, ódio, desejo, prazer e desespero. Michelângelo foi um dos primeiros artistas a libertar a moral do corpo do julgo das instituições.  − Mas a benção final só teríamos de Darwin, no século XIX.                  
Já no Brasil do século XXI, há uma demanda por um conservadorismo quase que medieval no entendimento sobre o que é o corpo humano e qual seu significado. O que nos faz questionar o que desencadeia esse retrocesso, essa ideia sobre a qual uma parte da sociedade resolveu se alocar e, pior, querer praticamente obrigar os outras a apoiarem suas linhas de raciocínio. Isso permite um alerta a respeito de algo tão nocivo quanto a corrupção política: a hipocrisia. Hipocrisia vem do grego antigo e quer dizer fingimento, quando alguém representa algo que não é e quer tirar frutos políticos de tal artimanha.
As cenas bizarras se repetem, tanto nas redes sociais como em meio a deputados da bancada evangélica que se colocam contra as liberdades civis e o nu artístico, enquanto consomem, em horário de trabalho, na Câmara, filmes pornográficos dos mais abjetos e, ainda compartilham em grupos pelo WhatsApp; além da apologia ao consumo de armas de fogo e de lutarem pelo fim do Estado laico. Claro, esse tipo de congressista tem como princípio se reeleger, dessa forma, mesmo sem acreditar em tais princípios, ou por se achar intocável, chafurda sem pudor em ideias tão retrógradas. Escolhê-las não o faz um mal sujeito, mas impô-las por meio do Estado, isso sim, é algo abominável. 
Quem mais perde com isso é o próprio cristianismo, pois passou, no Brasil, a ser capitaneado pela essência dos sepulcros caiados. Se o cristianismo nasceu com a ideia de se multiplicar pelo amor, hoje necessita da repressão para manter seus aparelhos de UTI ligados. A repressão é o primeiro sintoma de decadência, a hipocrisia a pá de cal final. Nem a parvoíce será perdoada.                        
                                                       


   

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Moro, o sub-gringo



Muito além da posse, ou não, do triplex do Guarujá, a qual Moro condenou Lula por nove anos de detenção, há todo um cenário geopolítico que a grande maioria da população não consegue enxergar. Em qualquer lugar do mundo a posse de um imóvel corresponde ao nome do proprietário estampado na escritura. Se formos honestos, concluiremos que esse não é o caso.
O que estava em julgamento não era a posse de um apartamento per meio ilícitos, mas sim uma forma política de ver o mundo a qual Lula representa: um conjunto de idéias de cunho social que atrelam a responsabilidade do Estado na organização e manutenção do bem estar coletivo. Alcançar o bem estar social por meio da positivação de leis que visam a aproximação das várias classes sociais brasileiras pra níveis, no mínimo, civilizatórios, sempre foi o papel de Lula, ao longo de nossa recente história política. - Talvez, por isso, tenha em meio a elite do país seus maiores inimigos e também seus apoiadores de maior peso. 
A curto prazo, sonhando com as benesses de um mercado livre e incontrolável, uma espécie de sonho econômico impossível, se encontra a elite conservadora do Brasil. Ela composta por aqueles que acreditam que o desenvolvimento do país não ocorre enquanto houver programas sociais, tais como as cotas raciais e o bolsa família. Exterminados tais programas e privatizado tudo o que se diz respeito à ação do Estado, nos tornaríamos um país que viria a se assemelhar aos EUA. Um sonho ingênuo que exala aromas fascistas e que não se envergonha de usar a força para se impor contra aqueles que pensam diferente.
Já a outra parte da elite do país defende uma política econômica que almeja o aumento da circulação de dinheiro no mercado interno. É onde se encontra os apoiadores de Lula, grupo que por vezes é identificado como esquerda caviar e que luta para que a aproximação entre as classes econômicas se faça pela ação do Estado na economia. Essa esquerda caviar sabe das necessidades de se limitar, via Estado, a libertinagem do sistema financeiro e de tornar a produção de bens algo mais real e menos especulativa e, dessa forma, possibilitar a manutenção econômica de uma grande classe média, por meio do trabalho e do consumo.
Assim temos dois caminhos para formatarmos, via eleições, o capitalismo brasileiro: a) uma liberalização desenfreada das ações do Estado, alcançada por privatizações a toque de caixa. b) um programa econômico onde o Estado vai concedendo espaços para a iniciativa privada, ao mesmo tempo em que fiscaliza os índices sócio-econômicas do país por meio da imprensa e de dados do IBGE e responde por programas sociais. Essa segunda opção nos tornaria uma social-democracia-tupi.
Porém, num mundo globalizado, tal escolha diz respeito, também, ao que os Estados Unidos, Europa e China querem e esperam do Brasil. Que tipo de 'desenho' deve ter nossa economia para que eles possam contar com ela para o desenvolvimento próprio? Dessa forma, podemos perceber que quanto mais aberto for nosso mercado, melhor pra eles e pior para nossas empresas e empreiteiras que, com ou sem propinas, vêm tocando o Brasil há décadas.
É fácil de perceber que Lula propõe a estruturação, primeiramente, de um mercado interno e um posterior avanço de nossas empresas no mercado global. O problema desse modelo é que ele pode gerar poder, 'bala na agulha'. E num mundo global competitivo, o que menos os países desenvolvidos desejam é um país emergente ganhando espaço no exterior.
E o Moro com isso? Simples: o papel a ele estipulado, nessa rede de interesses globais, foi o de  criminalizar, por meio do MP, da PF e suas sentenças, os CNPJs das empresas brasileiras investigas na Lava Jato, e não os CICs dos responsáveis pelos crimes. Isso é algo inédito no mundo.
Fica claro que Moro, por de trás de um muro de hipocrisia, defende os interesses externos e o faz por meio de um bode expiatório chamado Lula. Bode que alimenta muito bem a ignorância geopolítica dos grupos anti-petistas, mantendo-os cegos ante a realidade global.
Enfim, Moro trabalhou para os gringos nesse tempo todo, o que o torna, antropologicamente falando, num sub-gringo. Alguém que luta pelo desenvolvimento de nações estrangeiras, causando a miséria do próprio povo, enquanto enriquece a si mesmo com a trama que controla. Um trapo, 'um traíra', como se diz na Alemanha.                                          
         
           

                     

terça-feira, 23 de maio de 2017

Ser ou não ser petista do PT?



Passamos por um período político em que a produção de rótulos alcançou seu nível de exigência mais alto. É preciso definir o mundo para se poder controlá-lo, e nosso senso comum o faz de forma binária. Dessa forma, ou se é petista ou antipetista 'e não há outros!', como disse Caetano Veloso em sua música, Uns.
Acho interessante quando estou a falar sobre justiça social, no papel do Estado, na importância da educação pública, ou na falência cultural do estado de São Paulo, ou na importância dos Direitos Humanos, e isso seja na sala de aula, nos botecos, filas de supermercado e/ou beira de praia, a pergunta que emerge do ouvintes é se sempre a mesma: "o senhor é PT?".
Digo que sou pré-PT. Nos anos de 1980 minha geração estava no colegial, o atual ensino médio. Vivíamos o último suspiro da fracassada ditadura militar, sob a (indi)gestão inflacionária da economia e o desemprego causado pelo último general-gorila de plantão, 'joão figueiredo', que movido por um suposto sentimento de re-democratizar o país, passou o bastão para José Sarney, vice de Tacredo Neves, eleito indiretamente pelo Congresso. - Tancredo Neves morreu antes de assumir o cargo, por isso a posse do vice.  
Sob a batuta de José Sarney, os partidos saíram do limbo, proibição legal, e iniciaram sua discussões sobre as melhores políticas a serem adotadas. (Alguns foram criados a partir dali, tal como o PT).  Era uma época em que só havia uns parcos canais de TV abertos, as rádios pouco diziam sobre política e somente nos livros, jornais e revistas se encontrava uma análise sobre o que vivíamos em termos de política interna e externa. 
Dessa forma, discutíamos sobre diretos e deveres dos cidadãos e sobre como deveria ser o país, o papel do Estado, a Educação, a Saúde e etc.. Tudo havia ruído, a doce ilusão dos militares no poder havia virado pó. Havia apenas um rastro cheio de cadáveres desaparecidos, uma dívida interna e externa galopante, uma inflação diabólica, um desemprego asfixiante, um sistema educacional exclusivista e um povo condicionado a uma tutela elitista.
Bem, a política tem como finalidade catalisar os desejos humanos e criar vias para que esses mesmos desejos vejam a luz do dia e a prática cotidiana. Quando falávamos de sexualidade, de arte, de comunicação, conhecimento, economia, percebíamos que o grande entrave era o senso comum criado pela mediocridade da ditadura militar.
Dessa forma, iniciávamos um discurso baseado num neo-humanismo necessário ao Brasil, um país que deveria abrir espaços e trazer à tona os seres que habitavam seus guetos. Bolsões de pessoas foram confinados no silêncio e na invisibilidade pela truculência e intolerância de uma ditadura que representava e praticava uma visão sádica da sociedade, onde as proibições e padronizações de comportamento deveriam ser internalizados sem questionamentos. Menos questionado ainda, deveria ser o processo de exclusão. Falar disso, na ditadura, dava cadeia.  
Assim o PT surgiu com uma plataforma sócio-político-cultural para que todos pudessem ter voz. Ao saírem da escuridão, da invisibilidade, os desdentados, descamisados, os exilados e, aqueles seqüestrados de sua própria História, passaram a ter a possibilidade de emitir suas opiniões sobre a pátria na qual viviam. Sim, isso soava como uma profunda subversão ao ouvidos do status quo. Aqueles que não tinham terras, capital e empresas poderiam, também, falar e agir politicamente, afinal, o processo deveria se basear nas escolhas democráticas.
O PT, nos seus primeiros anos, me lembra o Salão de Jimmy Gralton. Gralton foi trabalhador rural irlandês que abriu, num celeiro na pequena propriedade rural de sua família, nas década de 1920, um espaço político-sócio-cultural. Aos sábados, à noite, os camponeses se reuniam para dançar jazz diante de um gramofone, para ouvir canções populares e participar de saraus de poesias. O Salão era usado, também, para que as pessoas ensinassem tudo o que sabiam às crianças. Aulas de pintura, literatura, teatro, política e etc., ocorriam livremente, em função dos anseios daquela sociedade atrasada.
Claro, a ação não ficou impune. O salão foi incendiado pela Igreja Católica que ainda formalizou, por meio de um sistema jurídico nada racional, bem ao estilo Moro, o exílio definitivo de Jimmy Gralton da Irlanda, acusado de corromper os tradicionais valores 'católicos' irlandeses burgueses.
Deveras, sou pré-PT. E esse espírito é incontrolável. Ressuscitá-lo haverá de ser uma prática cíclica e  contínua de todos nós, pois afinal, estamos condenados à Democracia. Péricles vive!                                         

           

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Liberdade: entre Crusoé e Heráclito



Algo que se assemelha à liberdade há de surgir quando pudermos controlar, ou esquecer, as forças motrizes que nos cercam, que até nos dão sentido antropológico, mas ao mesmo tempo nos escravizaram ao longo da História: o Capital, o Estado, Deus, a Ciência e até mesmo se pode arriscar uma citação de nosso aprisionamento aos aspectos os culturais. São identidades que nos trancafiam em conceitos por meio da subjetividade exigida pelos lastros dos mesmos com a realidade. Achar o Ser em meio a tantos conceitos exalados por uma longa ação histórica, em constante processo de auto-refutação, se torna algo dantesco; podemos dizermo-nos, sem medo, como criaturas sísificas. - Talvez controlar as forças motrizes venha a ser algo igual a esquecê-las.
Vivemos, ao longo do tempo, com a ideia de que o Ser brotaria vívido e evoluído após séculos de labuta dos fornos da dialética, em exaustivas tarefas de forjamento do homem-verdade-ser-livre em definitivo. Algo que fosse intenso em si mesmo e soberano sobre protocolos e sistemas. Mas parece que não há ser que o possa 'sê-lo' fora dos aspectos fenomenológicos. Sem história, razão e fenomenologia, não existimos. Os sistemas seriam experiências acumuladas e ratificadas pela razão que emana continuamente do processo histórico.
Heráclito sobrepôs a física à ontologia quando afirmou que não se pode atravessar a mesma água de um rio duas vezes. Inserido o tempo, mais nossa dependência e submissão a ele, somos induzidos a pensar, por meio do conceito de Heráclito que, além de perecíveis, somos prescindíveis quanto à questão do criação, estruturação e manutenção do ser e que não podemos, apesar do livre arbítrio, escolher, manter e refutar 'o ser em si', no decorrer de (sua) história.
A fenomenologia alimenta a impressão que temos do mundo. São essas impressões que nos formam, nos dão nossa consciência, além da maneira como vamos seguir em frente, na relação pessoal com outros seres e como próprio sentido do mundo.
Robson Crusoé, clássico da literatura de Daniel Defoe, após sobreviver a um naufrágio, necessita reconstruir sua vida, seu ser, a partir dos escombros do navio que flutuam nas águas litorâneas da ilha onde se encontra só e desconectado da civilização, mas não de si mesmo. Além dos objetos e suas funções e significados, Crusoé mergulha na memória, no seu sentido e na racionalidade para (re)construir um mundo habitável. O pobre náufrago não tem escolha, senão desobedecer a Heráclito e atravessar, por meio da memória e por várias vezes, as mesmas águas do rio de seu tempo de existência pessoal e civilizatório para continuar em frente, ou simplesmente não morrer.
Dessa forma, os sistemas, as forças motrizes, impõem sua estrutura ao ser que, ao agir por meio delas, há de crer em si mesmo como algo livre e autêntico e senhor das escolhas binárias que hão de determinar a morfologia do espaço geográfico. O espaço que se cria constantemente por meio da teoria exalada pela força atual do capital. - No Egito antigo criava-se cidades e monumentos em nome da religiosidade, da vida eterna do Faraó; Brasília foi construída para servir a política, a independência dos poderes.
Robson Crusoé tenta recriar seu mundo, seus valores, para que isso lhe possibilite, quase que como um prêmio de consolação, a conversar consigo mesmo em meio ao abandono e à solidão em que se encontra; isso lhe dá um parco sentido à vida de náufrago em que se encontra.  Ele não esquece da metafísica, nem os hábitos civilizatórios que o identificam como tal. Sua memória, sua consciência, sua vontade, não se cansam de buscar nas águas do passado de sua vida, e também da própria sociedade que habitava, aquilo que ele deve ser naquele momento. Deveras, mesmo solitário, Crusoé não é livre.
A existência, para que possa ser livre, dessa forma, deve se afastar da fenomenologia da existência que paira no passado, e precisará ter ares de esquecimento e desconexão para ser possível o início de algo levemente esboçado numa concretude de liberdade. Um abandono do processo dialético que, supostamente, se embasa numa racionalidade inquestionável e que se reflete na história, torna-se necessário para se começar algo livre, inclusive da própria consciência. Num neologismo, necessita-se bem mais que a negação da dialética, precisamos criar a 'desconexolética'. Além do esquecimento, da capacidade de esquecer quantas vezes for necessário para o bem estar do ser que anseia a liberdade.                                      

                       

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O rei, o liberal e o pensador


Do que se pode lembrar, era uma vez num reino distante. O rei havia se declarado proprietário único e inequívoco das terras e dos animais que habitavam os bosques e as florestas. Assim, ninguém poderia caçar e/ou plantar para se alimentar, salvo fosse para dar a maior parte para o rei e sua corte. Gente que nunca trabalhou, mas que se dizia dona de tudo e isso era em nome de Deus, aquele que justificava a organização do mundo como tal; não havia injustiça no mundo, mas sim a vontade de Deus. – Deveras, o povo passava fome.
Com o passar do tempo, surgiu um homem que desafiou a organização do mundo. Como era um caçador capaz de capturar os animais de grande porte com facilidade, batia no peito e berrava nas tavernas que o mundo deveria ser daqueles que fossem capazes de domá-lo. A eficiência da técnica de caçar, plantar e pescar é que deveriam ser critérios para que as pessoas fossem donas de terras e animais, não um rei supostamente autorizado por um deus.
Essas novas idéias se espalharam com o tempo. O rei deixou de existir e quem passou a dar ordens foram os homens que se intitulavam liberais, que ainda escolherem representantes para apoiar e justificar suas idéias a respeito de como o mundo deveria funcionar. Agora não mais pela vontade de Deus, mas sim por meio das ações dos mais eficientes sobre a Terra. Aqueles que fossem mais especialistas na caça e no plantio seriam as novas referências sobre o local do poder.
Dessa forma, o que parecia ser um avanço, era, na realidade, uma outra forma de controle e de subjugação da maioria por um minoria exclusivista. O pensamento do Liberal havia vencido o rei, mas em contrapartida, havia impossibilitado o surgimento de uma variedade de habilidades humanas, no que dizia respeito a ser e existir e viver, selecionando e permitindo somente pessoas que tivessem as mesmas habilidades de sobrevivência do Liberal inicial, para ocuparem a base da pirâmide social. Existir era um processo contínuo de micro-amputações de habilidades e desejos em prol de uma eficiência única, que deveria manter-se em contínuo funcionamento para a glória exclusiva dos lucros dos homens que haviam se apossado das terras e dos animais. - Deveras, o povo ainda passava por privações e não era feliz.
O tempo, como senhor da razão, tornou as idéias dos liberais velhas e anacrônicas. Para se manter no poder os liberais usavam a força armada e criaram instituições para reproduzirem seus jargões sobre a realidade, os termos que deveriam se constituir na matéria prima do senso comum, que dessa forma propagaria, aos quatro ventos, que a vida era assim e desde que o mundo era mundo. Era a formatação de um modelo que permitia os privilégios de alguns poucos sobre a maneira de pensar a História da espécie humana, um ‘arbítrio irracional’ se impondo à História universal como se fosse algo inquestionável, uma racionalidade última e definitiva.
Os liberais nunca se importaram com o fato de que manteriam o poder de maneira decadente. Isso nunca os incomodou. Mas sabemos que não se pode controlar o espírito humano. E em meio às multidões dos reinos dos homens serviçais dos liberais, começaram a surgir pensadores. Homens que usavam a lógica e razão para subverterem o universo criado pelos ditos liberais.
Na mesma taverna onde antes o especialista em caça fizera sua aparição, um homem de barbas vermelhas dizia a todos que a natureza não era uma máquina que poderia ser apropriada, nem por reis e nem de liberais, mas sim um organismo vivo que produzia pela biodiversidade. Se todos criassem animais em terras coletivas e também permitissem e estimulassem a produção agrícola diversificada, em comunhão com animais e plantas e outros seres humanos, todos teriam tempo para viver, in loco, as possibilidades do verbo ser. E não mais a cópia barata e constate de posturas de ações teorizadas e espalhadas pelo mundo por meio de palestras de gestão e de uma imprensa de braços dados como os simulacros do marketing liberal.
Os pensadores criaram espaços dissidentes dentro das linhas do pensamento ortodoxo liberal e passaram a ser 'cassados' por isso. Revelaram que muitas verdades eram apenas dogmas, ilusões que permitiam o controle das massas, compostas por indivíduos que pensavam de maneira igual e que viviam com medo de algo que nem sabiam o que era. Por isso evitavam pensar no trabalho como algo que lhes desse identidade social e cultural, ao mesmo tempo em que os envolveria, de novo, com o meio ambiente do qual haviam nascido. Somente a eficácia do lucro deveria ser discutida, para que o mundo pudesse ser, em paz, para sempre, 'neo-liberal’.         

                   

                                           
    


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Diálogo sobre as ilusões a respeito de um prefeito caviar


(Coxístenes se depara com Sócrates nas ruas de Atenas)

Coxístenes: Sócrates, é graças aos deuses que lhe encontro pelas ruas de Atenas. Nosso prefeito, Desnodória, é o mais comentado e citado nas redes sociais. Todos só falam dele e de suas 'conquistas', como aquela de se vestir de gari. Que belos tempos são estes, em que um prefeito se torna um ídolo? Que pensas sobre isso, caro Sócrates.
Sócrates: Não posso negar que a 'fama', por gestos tão 'nobres', cerca o tal prefeito. E nem posso deixar de pensar na 'qualidade' da platéia que o cerca, sobretudo no quesito da lógica, digo da lógica política e social, Coxístenes.
Coxístenes: Sócrates, como sempre, sou inclinado a dizer que não te entendi, meu caro.  Porém, devo-lhe adiantar que nosso estimado prefeito tem certa aversão à palavra: social.
Sócrates: Sim, isso ficou claro quando ele apagou os grafites da cidade e sem uma consulta prévia da própria sociedade que o elegeu.
Coxístenes: Mas aí é que está, caro Sócrates, ele conseguiu dar a volta por cima. Foram várias as críticas, inclusive a última feita por uma empresa, a Amazon, sobre o cinza sombrio que agora cobre nossa cidade. Ele, o Desnodória, respondeu que, ao invés de criticar, a empresa deveria doar livros e aparelhos eletrônicos para as nossas escolas. Achei isso genial, Sócrates! Como não se encantar, se apaixonar por algo tão maravilhoso?
Sócrates: Se me permite, caro Coxístenes, toda paixão é cega, como já disseram nossos sábios filósofos; entre eles, Flaviano de Corinto. E com base nisso, se me permite, dentro de minha ignorância, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Posso fazê-la?
Coxístenes: Mas é claro, Sócrates. Pergunte.
Sócrates: O prefeito, o Desnodória, é um homem de negócios, um empresário,  um gestor e logo, em função disso, supostamente, teria potencial para ser um bom administrador público. Seus asseclas sempre afirmam isso de maneira veemente, não é mesmo?
Coxístenes: É exatamente isso, Sócrates. Ele foi eleito com base nesse discurso: um gestor apolítico. Ou um não político. Bem, algo do gênero, se não me engano.  
Sócrates:  Então eu não me equivocaria se achasse que o dito prefeito, que por enquanto só faz alarde nas redes sociais, pedisse às empresas, tais como essa Amazon, que doassem livros e computadores para nossas crianças, mas com base nos próprios grafites, tal como se dissesse: "...se empresas doarem livros e computadores para nossas escolas, poderíamos produzir coisas ainda mais bonitas que os 'nossos' grafites. Não só melhoraríamos a formação do cidadão, como também no embelezamento estético da cidade".
Coxístenes: Sócrates, você me confunde. Pode me explicar melhor?
Sócrates: A questão está ligada ao processo educacional. Todo prefeito deve ter em mente a importância da educação. Dessa forma, se ele mostrasse o que a cidade já fez de correto, as ditas ações que nos tornaram melhores, e as potencializasse, eu diria que ele não só estaria protegendo, como também estimulando o pensamento ético do senso comum, base para a construção saudável do espaço geográfico em que vivemos todos nós.
Coxístenes: Agora me confesso perdido, Sócrates.
Sócrates: Ele não só apagou grafites, mas estraçalhou formas de pensamentos sociais, provindos do sistema educacional. Pense na sociabilidade que se fez ao redor da produção dos grafites? Quanta gente foi envolvida na execução dessas obras? E mais: Desnodória interferiu negativamente na forma de como as futuras gerações irão olhar pra cidade. O que era cor, expressão, tornou-se cinza(s) em função da arbitrariedade.
Coxístenes:  Mas e aquela polêmica toda que causou? Você é polêmico...     
Sócrates: Exato, Coxístenes. Ele usou a polêmica, a usa ainda, não para ampliar a visão política do cidadão, mas sim para remediá-las com a possibilidade de negócios, mesmo que isso destrua e corrompa pensamentos e concepções estimulados pela educação. Afinal, qualquer um pode ser um bárbaro, um chefe de boca de fumo que só sabe polemizar e resolver essas mesmas polêmicas, geradas por ele mesmo, com os negócios embasados num autoritarismo semeado de lucratividade e proibições. Ele induz a sociedade a aceitar uma 'servidão' diante da gestão que propõe.   
Coxístenes: Sócrates, você quer dizer nosso prefeito usa uma lógica de homem de negócios privados, tal como se fosse um chefe de boca de fumo, para administrar a cidade?
Sócrates: Não quero ser tão polêmico assim, meu caro. Mas espero o dia em que ele se vestirá de professor, de enfermeiro, de desempregado, de artista de rua, de camelô, de artesão de, de um doente que necessita das farmácias do SUS que ele vai fechar,  de operário..."um simples operário que sabia exercer sua profissão".                       
                  

        

quarta-feira, 29 de março de 2017

Sobre as meias e a maneira de pensar



As meias separam a pele dos pés da aspereza dos calçados, sejam eles sintéticos ou de couro. Para enfrentarmos o mundo, e suas engrenagens, usamos as mesmas meias dos jogadores de basquete da América do norte. São de algodão, têm elástico, podem ser brancas, coloridas e/ou com faixas. Elas aquecem os pés em dias outonais e invernais. - Os homens de negócio que usam terno preferem as meias de poliéster.
Bem, sempre fui criticado em minha família por usar meias ao avesso. Já as mulheres que me viram só de meia, nunca prestaram a atenção nisso. Há algo mais para se ver na nudez exposta na escuridão das alcovas do que a maneira de como se usa as meias. Mas voltando ao tom familiar, 'vestir' meias ao avesso pode ser um sintoma de desleixo e indisciplina. Essa foi a sentença que recebi de meus ancestrais. Do mesmo jeito que não se lia um livro de trás pra frente, ou se entrava num cinema depois do início de um filme, diziam, também, meus familiares, que não se vestia um par de meias pelo avesso. Talvez, quem sabe, numa canção de Caetano Veloso, mas não na vida real, não.
Várias vezes tentei explicar que, para a pele humana, era muito mais confortável que aquela costura toda, feita por máquinas, ficasse em contato com o calçado e que a simetria do lado externo das meias suavizava a vida dos pés e tornozelos. Era uma bela maneira de se evitar coceiras e incômodos, como os causados por aqueles gomos costurados que ficavam entre os dedos dos pés por horas e horas.
Mas o conservadorismo tende a se assustar com pequenas liberdades tomadas por sujeitos insignificantes. Usar um par de meias ao avesso pode subverter as ordem das coisas do mundo e minimizar alguns valores morais tão caros à sociedade e a seu funcionamento hierárquico. Exemplo: um soldado raso é só uma 'coisa' que deve usar as meias do lado certo e não um ser humano que pode optar pelo conforto da pele dos pés.
Se trocarmos o objeto da análise, as meias, pelo amor, veremos que o efeito pode ser quase o mesmo. O amor é como um casaco de pele que vestimos com deferência e orgulho. Talvez seja aquilo que mais nos torne humanos e insuportáveis. Afinal, é uma peça confeccionada pelo tragicômico e inconseqüente espírito de Eros. E diga-se de passagem, por dentro é revestido de espinhos e por fora é liso como a pele de um bebê foca; desses bem branquinhos. Vesti-lo ao avesso o transforma numa arma de sobrevivência, numa armadura capaz de deitar ao chão os espíritos que habitam nossas ilusões e sempre vêm nos prometer o paraíso.
Claro, podemos habitar o avesso de várias vestimentas e trajes. Como no smoking da conversação, por exemplo, um traje que é revestido de silêncio. E ao vesti-lo nos seus contrários, nos livramos da mediocridade dos debates acadêmicos, do discurso idiotizado dos admiradores do Dória-MBL-gestão-padrão-fascista e ignorâncias mais. Adquirimos, assim, a saborosa proteção do silêncio e da invisibilidade; além da possibilidade da fuga permanente da chatice, da monotonia e da falsa educação de salão que nos obriga a saudações e convenções proclamadas pelo status quo. - E também dos imbecis em qualquer situação e/ou idioma.
Talvez por isso se diga, no senso comum, que ao se vestir uma camisa ao avesso, isso corresponderia a um medo (in)consciente de fugir de um provável ataque de um 'cachorro louco'. Dessa forma, se o avesso de tal peça de vestimenta é um amuleto para espantar a loucura de alguns que desejam tomar satisfações sobre a vida que não lhes diz respeito, há pouca gente de camisa ao avesso em função do enorme número de lunáticos à solta. Não sei ao certo o tamanho do diâmetro da proteção de tal amuleto, mas o fato é que, se espanta cachorros e homens loucos, há de ter o mesmo efeito da canja de galinha: se não faz mal, melhor prevenir do que remediar.
Em suma, melhor ofertar o avesso ao público e proteger o lado humano, senão é o pobre homem sincero e humilde quem acaba transfigurado em obsolescência programada e antes mesmo de aprender a dizer, não! Afinal, o inferno são o outros!                                                 

     

segunda-feira, 13 de março de 2017

Diálogo sobre a honestidade de um juiz

Sócrates se encontra com Coxístenes na praça de Atenas
Coxístenes: Caro Sócrates, te encontro num dos grandes momentos de nossa história! A Justiça, podemos dizer, se personifica. Ela vive e fará nosso futuro melhor.
Sócrates: Sua empolgação me alegra, porque sei que isso é fruto de um sentimento cívico que anseia pela ética, caro Coxístenes. Que os deuses o abençoem.
Coxístenes: E não poderia ser de outra forma, caro Sócrates. Moroclídes, nosso juiz, anda a conduzir com maestria processos contra forças políticas populares acusadas de corrupção. Forças políticas que já nos governaram. É o tempo do advento profetizado pelos oráculos.
Sócrates: Que assim seja, Coxístenes. Mas se me permite um questionamento, pois se não o fizer não seria eu o Sócrates, a mosca, que todos já conhecem. E eis a questão: bem, ando a perceber que até alguns poderosos políticos têm aplaudido tal juiz. De certa forma, isso me causa estranheza, e até mesmo preocupação, pois o poder em nossa sociedade se alcança, digamos, nem sempre de uma maneira justa. Porém, logo se torna privilégio. Em termos públicos, onde há privilégio político há injustiça. Ou estarei errado, caro entusiasta cívico, ao dizer que um grande número de homens injustos se regozija com a ação desse juiz?
Coxístenes: Não, Sócrates, parece que não. A bem da verdade, nem tinha pensado nisso.
Sócrates: Então, aprofundemos: além dos poderosos políticos que estão a aplaudir o ‘incauto’ juiz, estão também os poderosos das empresas de informação. Acho que concordaria comigo se eu te lembrasse que tais empresas estão longe de um comportamento moral adequado e agem muito mais por interesses econômicos próprios do que pelo bem da ética.
Coxístenes: Iluminado Sócrates, ainda não tinha observado a qualidade moral do salão que anda a aplaudir esse divino juiz! Isso é grave!
Sócrates: Exato. Entre os réus de tão nobre juiz, está Péricles, homem que lutou contra os poderosos ao distribuir terras, reduziu o poder da aristocracia com o voto popular nas assembléias populares, abriu universidades e programas sociais que reduziram a fome e a miséria. Claro, como homem comum, não está acima dessa mesma lei votada nas assembléias. Mas me parece, muito mais por ‘falta de atenção’ do que por uma ‘abjeta intenção política de nosso juiz’, que nosso sistema jurídico age, nesse momento, com exclusiva intenção de penalizar Péricles. Não como cidadão, mas como força política. Assim sendo, pergunto: seria esse o motivo de endeusamento do juiz pelos inimigos políticos de Péricles?
Coxístenes: Agora me sinto confuso. Não sei mais se ainda sei o que é a Justiça!
Sócrates: Sim, também sinto o mesmo. Mas sei que é extremamente injusto determinar que a única possibilidade de se existir, como indivíduo, seja aquela que possibilita o contínuo enriquecimento dos poderosos. O próprio ser no mundo não é o suficiente para se criar uma política de bem estar social. Muito mais que homens corruptos, um sistema injusto é a própria corrupção personificada pelo desmanche do Estado em prol dos negócios que passam a ser feitos de forma privada, onde antes havia atendimento público social.
Coxístenes: Sócrates, será que a História nos perdoará?
Sócrates: Não sei, a História parece ter sido proibida. Mas entendo que fazer justiça não é destruir a capacidade de um cidadão de fazer política. Não estão desejando apenas a prisão de Péricles, mas a destruição de suas idéias que passaram a ser, também, sinônimo de uma política de Estado de bem estar social. Basta ver a reforma da previdência proposta pelos poderosos que dirigem o governo atual. Confirmada, será uma das mais injustas do mundo.
Coxístenes: E começamos essa discussão com base na suposta imparcialidade de um juiz que nos levaria à Justiça. Precisamos avisar aos jornais que tal injustiça ocorre em nossa cidade. Ó Sócrates, eles irão nos ouvir a tempo de corrigirmos essa injustiça?
Sócrates: Às vezes a esperança se confunde com a omissão. E assim afundamos ainda mais nas trevas das Cavernas. Mas vá, Coxístenes, só você pode arrumar aquilo que estragou. Adeus amigo, e que os deuses tenham piedade de ti.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O 'Chullachaqui'


É um espírito vazio de si mesmo que se tornou uma imagem fantasmagórica que vaga pelas florestas equatoriais sul-americanas, perdido num tempo sem tempo, num espaço imemorial do futuro/passado pré-cosmogônico, onde tudo ainda não começou ou já foi destruído. E deveras reina o caos. É assim que os índios no alto rio Amazonas interpretam a fotografia.
Mais isso é muito mais do que uma simples análise dos efeitos do daguerreótipo na racionalidade mitológica indígena sobre as estranhas mágicas praticadas pelos homens brancos e seus souvenires tecnológicos. - Na Amazônia peruana, Chullachaqui é um espírito que aparece para os solitários que se perdem na floresta, ele tem um pé diferente, um pé de cabra, e ilude sua vítima a ponto de fazê-la desaparecer em espaços vazios do mundo.
Nossa sociedade modernizada também produz os seus "chullachaquis" através das infinitas fotografias produzidas pelas câmeras dos celulares, daguerreótipos digitais, postados a exaustão nas redes sociais. Imagens vazias, legendadas por frases que vão desaparecendo lentamente até que mergulharão na ausência total de significado. Fantasmas e mais fantasmas multiplicando-se num mundo com uma profunda ausência de palavras. - Seria esse o sonho de Wittengeistein: um lugar onde as várias camadas de subjetividades que envolvem as palavras são dissolvidas por Chullachaquis, só restando, por fim, imagens, denotações multicores de fantasmas expostos e apresentados por sinais polidos a exaustão a ponto de tornaram-se placas/esculturas/palavras?
Em tempos de evolução da tecnologia e da bio-química, a longevidade tem se tornado uma característica marcante dessa sociedade digital, onde o corpo vem vencendo o tempo. Porém o cérebro parece não conseguir acompanhar esse 'puxadinho' de vida 'biológica'. É a dança de milhões e milhões de pessoas com Alzheimer e outras doenças mentais que nos transformam em Chullachaquis modernos. No auge da doença, sobra apenas uma imagem de alguém que já existiu e que perde, lentamente, o passado e se despede do futuro. Em pouco tempo já não sabe mais quem é e nem o que deve fazer. Só restam a imagem, o silêncio e o caos mental. As palavras se tornam grunhidos. Não há esperanças ou uma subjetividade mínima que possam consolar o que se falta a 'viver' nesse puxadinho possibilitado pela bio-química.
Alguns mais aficionados pelo mundo da mitologia dirão que os Chullachaquis resgatam as pessoas de seus mundos pasteurizados e acromáticos, salvando-os de uma destruição  causada pela insignificância e os apresenta à chacrona, planta alucinógena usada em chás amazônicos. Ao bebê-la, dissolvida no chá, o solitário se projeta em alucinações no interior da metafísica indígena que dá sentido à vida. Por isso esses mitos 'tricksters', (traiçoeiros), preferem os corações abandonados que até já pensaram em vender a própria alma aos infernos, em troca de alguma dose de hedonismo pulsante nesse mundo 'concreto' que se 'liquefaz' dia após dia. - Se Immanuel Kant criou a Crítica da razão Pura, os xamãs amazônicos criaram a Análise do Padrão Psicodélico Puro, pois a divindade que habita o princípio ativo da chacrona, em tese, criaria alucinações padronizadas. Ao decodificá-las e entendê-las encontraríamos o sentido da vida.
O Coiote, Macunaíma, Loki, Chullachaqui, entre outros, são tricksters, espíritos traiçoeiros que nos ajudam a evoluir espiritualmente enquanto também evoluem porque nascem sem caráter, mas com uma propensão gigantesca às traquinagens e molecagens. Isso se dá, grifo nosso, em função de uma ausência de uma consciência histórica linear. Esses seres não contam o tempo de forma binária e em somatória acumulativa escatológica. - Estar sempre no mesmo espaço natural, a floresta, contando o tempo através das luas, torna o índio amazônico o campo da batalha entre o bem e mal desprovido de parâmetros, paradigmas, axiomas e caracteres racionais históricos; eis o puro feeling em ação.  
Afinal, cada animal é um aspecto da alma humana que vagueia pela Terra e ao defrontar-se consigo mesmo, a todo instante, na busca pela essência das coisas, não pode a alma ser encontrada em algo mediado por uma moral positivada pela razão de um tempo histórico tradiconal. O relativismo latitudinário ilimitado da psicodelia advinda da chacrona torna-se a única chave de abertura para um mundo que não é um mundo, um sentido que não é um sentido, mas que fará dos seres da florestas algo mais puro e benéfico ao próprio universo, pois afinal  dissolver-se-ão no âmago insondável da irracionalidade e quem sabe, da felicidade. Assim é, assim seja.
Mazel Tov.                                
          
                

             

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O conservadorismo é uma patologia

Patologia é uma degeneração do organismo que vai de uma suposta normalidade para um funcionamento irregular e prejudicial ao corpo e/ou ao mundo externo que o envolve. Tecnicamente falando, uma depressão causa mal a um indivíduo que a desenvolveu e aos seus familiares mais próximos. Já a loucura/neurose/esquizofrenia, entre outras patologias, podem fazer mal pros vizinhos, pro bairro e até pra uma cidade inteira, dependendo do caso.
Na política, as patologias tendem a levar a Sociedade, como um todo, ao desconforto. Claro, sempre haverá os seguidores fanáticos desses líderes patológicos que passam a acreditar que descobriram o caminho das Índias e, deveras, começam a produzir pérolas e mais pérolas. As políticas higienistas, por exemplo, propõem um suicídio que se comete por partes. Um dos maiores casos de patologia política, na História, foi o de Adolf Hitler, com o nazi-fascismo. Hitler iniciou seu pesadelo, que chamava de sonho, pela exclusão física dos judeus dos bairros das cidades alemãs, com respectivos confinamentos em guetos e posteriori extermínio em holocaustos nos Campos de Concentração.
A política saudável e racionalmente Iluminista, base de nosso modelo republicano, propõe justamente o oposto: devemos vislumbrar as fronteiras das mortes causadas por carências sócio-econômicas do processo de exclusão e revertemos seu fluxo de fora pra dentro da vida sócio-político-cultural. Ou seja, um anti-hitler iria administrar o mundo alemão, dos anos de 1930, tentando trazer os habitantes dos índices de mortalidade e de subsistência dos 'guetos' pra dentro dos bairros através da educação, do trabalho e da participação política. E todos, juntos, para os espaços culturais públicos onde se poderia usufruir da individualidade o mais próximo possível da ideia que se tem de liberdade.
Jeremy Bentham, jurista inglês do século XVIII, defendia a tese de que o quê seria bom e saudável para a coletividade, para o grupo social, logo seria saudável, também, para o indivíduo.  Porém, a noção do que 'deve ser' o conjunto cultural coletivo, nos remete, sempre, nas questões do dissenso. E isso sempre eleva a temperatura política causando um superaquecimento nas relações sociais e seus inevitáveis conflitos. Ora essa tensão é explicitada em protestos, ora nas vias de fato: pancadaria.
Claro, no fundo estamos falando de lógica. Por um minuto imaginemo-nos desejosos em potencializar o funcionamento de um programa de computador, um programa que chamamos de sistema operacional. O que devemos fazer? Começar pelo hardware, ou pelo software? Pelo hardware: se mudarmos o formato da tela, o tamanho do mouse, a extensão dos fios, o 'desing' do gabinete, será que com todas essas 'mudanças' o sistema operacional iria funcionar melhor? Ou devemos elaborar uma ideia de como, e o quê, o 'pensamento' que iremos desenvolver no software deverá fazer e não fazer e assim definimos sua essência e por conseqüência, no conjunto de hardware?
Eu prefiro as mudanças internas que revelam as novas necessidades externas coletivas com seus respectivos periféricos, o que chamamos de patrimônio público. Claro, sem educação, reflexão, debate e inclusão, a sanfona não toca e o baile não segue. Temos exemplos práticos dessa anomalia que deseja mudar o mundo através da repaginação dos 'periféricos' para se alterar o modo de se pensar. Sim, são patologias políticas, tanto Trump, quanto Dória.
O norte-americano, que até tem alguns 'bons pensamentos', sobretudo quando atribui ao sistema especulativo americano a culpa pelo empobrecimento da classe média americana, que segundo ele, pagou a conta pelo enriquecimento da especulação desenfreada, se torna um pateta quando deseja construir um muro que separe os EUA do México. E ainda: deseja proibir a entrada de imigrantes no país. Os EUA são um país de imigrantes. Proibi-los é algo que conota uma patologia: quando o sistema imunológico ataca o próprio corpo, nos deparamos com as doenças auto-imunes, no caso o Lupus. Dessa forma, os EUA, com Tramp, desenvolveram um Lupus social.
O mesmo pra Dória: seja de Gari, numa cadeira de rodas, ou como apagador de pichações, em sua limitada visão do mundo, a pichação, a 'sujeira' estão nas paredes, no chão da cidade. Apagá-las, varrê-las, só servirá para produzir mais e mais. Como ocorre quando se corta uma das cabeças da Hidra; Ou mesmo das doenças da pele: quanto mais se coça, mais a coceira espalha.
As patologias revelam, principalmente na política, o quão superficiais são esses homens e o que podem desencadear na sociedade, em termos de malefícios, pois não são essenciais em suas ações, mas superficiais. Patéticos, tristemente patéticos, com seus seguidores ilógicos, que ascendem, dessa forma, dia a dia, ao nível dos drones: comandados, mas sem um cérebro que os individualize.