terça-feira, 23 de maio de 2017

Ser ou não ser petista do PT?



Passamos por um período político em que a produção de rótulos alcançou seu nível de exigência mais alto. É preciso definir o mundo para se poder controlá-lo, e nosso senso comum o faz de forma binária. Dessa forma, ou se é petista ou antipetista 'e não há outros!', como disse Caetano Veloso em sua música, Uns.
Acho interessante quando estou a falar sobre justiça social, no papel do Estado, na importância da educação pública, ou na falência cultural do estado de São Paulo, ou na importância dos Direitos Humanos, e isso seja na sala de aula, nos botecos, filas de supermercado e/ou beira de praia, a pergunta que emerge do ouvintes é se sempre a mesma: "o senhor é PT?".
Digo que sou pré-PT. Nos anos de 1980 minha geração estava no colegial, o atual ensino médio. Vivíamos o último suspiro da fracassada ditadura militar, sob a (indi)gestão inflacionária da economia e o desemprego causado pelo último general-gorila de plantão, 'joão figueiredo', que movido por um suposto sentimento de re-democratizar o país, passou o bastão para José Sarney, vice de Tacredo Neves, eleito indiretamente pelo Congresso. - Tancredo Neves morreu antes de assumir o cargo, por isso a posse do vice.  
Sob a batuta de José Sarney, os partidos saíram do limbo, proibição legal, e iniciaram sua discussões sobre as melhores políticas a serem adotadas. (Alguns foram criados a partir dali, tal como o PT).  Era uma época em que só havia uns parcos canais de TV abertos, as rádios pouco diziam sobre política e somente nos livros, jornais e revistas se encontrava uma análise sobre o que vivíamos em termos de política interna e externa. 
Dessa forma, discutíamos sobre diretos e deveres dos cidadãos e sobre como deveria ser o país, o papel do Estado, a Educação, a Saúde e etc.. Tudo havia ruído, a doce ilusão dos militares no poder havia virado pó. Havia apenas um rastro cheio de cadáveres desaparecidos, uma dívida interna e externa galopante, uma inflação diabólica, um desemprego asfixiante, um sistema educacional exclusivista e um povo condicionado a uma tutela elitista.
Bem, a política tem como finalidade catalisar os desejos humanos e criar vias para que esses mesmos desejos vejam a luz do dia e a prática cotidiana. Quando falávamos de sexualidade, de arte, de comunicação, conhecimento, economia, percebíamos que o grande entrave era o senso comum criado pela mediocridade da ditadura militar.
Dessa forma, iniciávamos um discurso baseado num neo-humanismo necessário ao Brasil, um país que deveria abrir espaços e trazer à tona os seres que habitavam seus guetos. Bolsões de pessoas foram confinados no silêncio e na invisibilidade pela truculência e intolerância de uma ditadura que representava e praticava uma visão sádica da sociedade, onde as proibições e padronizações de comportamento deveriam ser internalizados sem questionamentos. Menos questionado ainda, deveria ser o processo de exclusão. Falar disso, na ditadura, dava cadeia.  
Assim o PT surgiu com uma plataforma sócio-político-cultural para que todos pudessem ter voz. Ao saírem da escuridão, da invisibilidade, os desdentados, descamisados, os exilados e, aqueles seqüestrados de sua própria História, passaram a ter a possibilidade de emitir suas opiniões sobre a pátria na qual viviam. Sim, isso soava como uma profunda subversão ao ouvidos do status quo. Aqueles que não tinham terras, capital e empresas poderiam, também, falar e agir politicamente, afinal, o processo deveria se basear nas escolhas democráticas.
O PT, nos seus primeiros anos, me lembra o Salão de Jimmy Gralton. Gralton foi trabalhador rural irlandês que abriu, num celeiro na pequena propriedade rural de sua família, nas década de 1920, um espaço político-sócio-cultural. Aos sábados, à noite, os camponeses se reuniam para dançar jazz diante de um gramofone, para ouvir canções populares e participar de saraus de poesias. O Salão era usado, também, para que as pessoas ensinassem tudo o que sabiam às crianças. Aulas de pintura, literatura, teatro, política e etc., ocorriam livremente, em função dos anseios daquela sociedade atrasada.
Claro, a ação não ficou impune. O salão foi incendiado pela Igreja Católica que ainda formalizou, por meio de um sistema jurídico nada racional, bem ao estilo Moro, o exílio definitivo de Jimmy Gralton da Irlanda, acusado de corromper os tradicionais valores 'católicos' irlandeses burgueses.
Deveras, sou pré-PT. E esse espírito é incontrolável. Ressuscitá-lo haverá de ser uma prática cíclica e  contínua de todos nós, pois afinal, estamos condenados à Democracia. Péricles vive!                                         

           

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Liberdade: entre Crusoé e Heráclito



Algo que se assemelha à liberdade há de surgir quando pudermos controlar, ou esquecer, as forças motrizes que nos cercam, que até nos dão sentido antropológico, mas ao mesmo tempo nos escravizaram ao longo da História: o Capital, o Estado, Deus, a Ciência e até mesmo se pode arriscar uma citação de nosso aprisionamento aos aspectos os culturais. São identidades que nos trancafiam em conceitos por meio da subjetividade exigida pelos lastros dos mesmos com a realidade. Achar o Ser em meio a tantos conceitos exalados por uma longa ação histórica, em constante processo de auto-refutação, se torna algo dantesco; podemos dizermo-nos, sem medo, como criaturas sísificas. - Talvez controlar as forças motrizes venha a ser algo igual a esquecê-las.
Vivemos, ao longo do tempo, com a ideia de que o Ser brotaria vívido e evoluído após séculos de labuta dos fornos da dialética, em exaustivas tarefas de forjamento do homem-verdade-ser-livre em definitivo. Algo que fosse intenso em si mesmo e soberano sobre protocolos e sistemas. Mas parece que não há ser que o possa 'sê-lo' fora dos aspectos fenomenológicos. Sem história, razão e fenomenologia, não existimos. Os sistemas seriam experiências acumuladas e ratificadas pela razão que emana continuamente do processo histórico.
Heráclito sobrepôs a física à ontologia quando afirmou que não se pode atravessar a mesma água de um rio duas vezes. Inserido o tempo, mais nossa dependência e submissão a ele, somos induzidos a pensar, por meio do conceito de Heráclito que, além de perecíveis, somos prescindíveis quanto à questão do criação, estruturação e manutenção do ser e que não podemos, apesar do livre arbítrio, escolher, manter e refutar 'o ser em si', no decorrer de (sua) história.
A fenomenologia alimenta a impressão que temos do mundo. São essas impressões que nos formam, nos dão nossa consciência, além da maneira como vamos seguir em frente, na relação pessoal com outros seres e como próprio sentido do mundo.
Robson Crusoé, clássico da literatura de Daniel Defoe, após sobreviver a um naufrágio, necessita reconstruir sua vida, seu ser, a partir dos escombros do navio que flutuam nas águas litorâneas da ilha onde se encontra só e desconectado da civilização, mas não de si mesmo. Além dos objetos e suas funções e significados, Crusoé mergulha na memória, no seu sentido e na racionalidade para (re)construir um mundo habitável. O pobre náufrago não tem escolha, senão desobedecer a Heráclito e atravessar, por meio da memória e por várias vezes, as mesmas águas do rio de seu tempo de existência pessoal e civilizatório para continuar em frente, ou simplesmente não morrer.
Dessa forma, os sistemas, as forças motrizes, impõem sua estrutura ao ser que, ao agir por meio delas, há de crer em si mesmo como algo livre e autêntico e senhor das escolhas binárias que hão de determinar a morfologia do espaço geográfico. O espaço que se cria constantemente por meio da teoria exalada pela força atual do capital. - No Egito antigo criava-se cidades e monumentos em nome da religiosidade, da vida eterna do Faraó; Brasília foi construída para servir a política, a independência dos poderes.
Robson Crusoé tenta recriar seu mundo, seus valores, para que isso lhe possibilite, quase que como um prêmio de consolação, a conversar consigo mesmo em meio ao abandono e à solidão em que se encontra; isso lhe dá um parco sentido à vida de náufrago em que se encontra.  Ele não esquece da metafísica, nem os hábitos civilizatórios que o identificam como tal. Sua memória, sua consciência, sua vontade, não se cansam de buscar nas águas do passado de sua vida, e também da própria sociedade que habitava, aquilo que ele deve ser naquele momento. Deveras, mesmo solitário, Crusoé não é livre.
A existência, para que possa ser livre, dessa forma, deve se afastar da fenomenologia da existência que paira no passado, e precisará ter ares de esquecimento e desconexão para ser possível o início de algo levemente esboçado numa concretude de liberdade. Um abandono do processo dialético que, supostamente, se embasa numa racionalidade inquestionável e que se reflete na história, torna-se necessário para se começar algo livre, inclusive da própria consciência. Num neologismo, necessita-se bem mais que a negação da dialética, precisamos criar a 'desconexolética'. Além do esquecimento, da capacidade de esquecer quantas vezes for necessário para o bem estar do ser que anseia a liberdade.