terça-feira, 29 de outubro de 2013

Hochican



Descartes dizia que os macacos só não falavam porque não queriam. Guardar o silêncio foi a melhor maneira de fugir do trabalho. Só os animais que falam e se comunicam devem trabalhar arduamente e desde a expulsão do Homem do paraíso. No bom sentido da palavra, os animais pagaram o pato no momento em que Yaveh saiu com Adão e Eva nas costas e a bicharada a tiracolo. — Por que os animais foram expulsos do paraíso? Que crimes cometeram?
Ao primeiro momento fora do paraíso, com o sol sobre a pele suarenta, e consciente que dali pra frente o sustento seria à base de ‘enxadadas’, Adão levantou os braços pro céu e clamou indignado, “Pai, por que me abandonastes?”. Ao contrário, os animais se mantiveram em silêncio. A boca devidamente fechada nos permite que os ouvidos saiam imaculados a respeito de ordens que, tecnicamente, não podemos deixar de cumprir. Se 'Aquele' que manda determinou que os animais não falam e por isso não trabalham, e são parte de uma natureza cíclica, quem somos nós, pobre primatas pra dizer que não?! Tal veredicto foi dado em função dos animais não se comunicarem e até hoje, pelo que se sabe, não sabem usar o facebook. 
É fato que algumas espécies não deram sorte e ‘suaram’ duramente ao longo da história da humanidade. Cavalos, bois, cabras, como animais de carga; cães, papagaios, elefantes, em atuações artísticas no circo. A lista é longa. Alguns chipanzés tornaram-se astros de Cinema. Mas tudo não passa de um condicionamento, se não forem obrigados, voltam para suas vidas ‘improdutivas’, em obediência à natureza, sentido único e exclusivo dos animais. Também não sei por que seria necessário outro motivo.
Penso, às vezes, com os botões de minhas camisetas Hering que, foi a Natureza quem se rebelou contra o ‘criador’. Ela não aceitou o projeto criacionista de Yaveh, o todo poderoso do mundo judaico que vislumbrou a perfeição em algo estático. A Natureza, ao contrário, desejosa para que tudo se transformasse e nada viesse a se perder, iniciou um eterno retorno sobre si mesma e, — discordando do bom velho Nietzsche—, evoluiu a cada onda que a re-formatava e o fará enquanto durar o ad infinitum. Evoluir é a melhor maneira de fugir de si mesmo, e nada mais sábio do que isto, em se tratando de Natureza, que dirá de homo sapiens para homo sapiens?!
Mas antes que você, caro leitor, fique tão curioso quanto Tony Ramos, que pergunta se é Friboi até mesmo em loja de lingerie, vou explicar quem é Hochican. Dizem os boximanes da África do Sul, que Hochican era um espírito que fugiu desse mundo e levou consigo o dom da fala que havia nos animais. Talvez tenha feito o melhor favor que essas pobres criaturas já receberam na vida. Afinal, quem fala, obrigatoriamente, é alguém que trabalha para viver e sofre nas segundas-feiras. Basta começar o programa do Faustão para se entender o quanto se sofrerá no dia seguinte.
Hochican deixou a fala somente com o homo sapiens, a quem, ao que o parece, amava profundamente. E foi graças a esse dom que o Homem construiu o que chamamos de Espaço Geográfico, e o fez sobre uma força que poderia alimentá-lo ao longo da vida, sem que ele precisasse fazer outra coisa senão levantar a mão e tomar pra si o fruto puro, produzido por essa natureza com gratuidade, desde que ele fosse também natureza selvícola, selvagem, cosmo despudorado. Como diria Caetano Veloso, "mais avançado que a mais avançadas da tecnologias".
        Depois de pegar o fruto da árvore, que tal deitar na areia da praia e tirar um cochilo até a hora da pesca com o arpão feito de galho seco? Nem é preciso perguntar ao peixe, que vive ali na enseada, se ele é Friboi!       

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Por que agimos sobre o mundo?



Robert Frost, um poeta americano, escreveu um dos mais belos poemas do Ocidente, a Estrada não trilhada.  Quando se viu diante de dois caminhos, o poeta escolheu o menos usado, aquele que ainda estava coberto de folhas secas e praticamente não era sinalizado. Essa escolha, menos usual, diz ele ao final, fez toda diferença em sua vida.
Uma bela metáfora para se explicar o sentido de nossas vidas, que diz respeito às nossas escolhas. O princípio da mediocridade está relacionado diretamente com as escolhas óbvias, os discursos prontos, e a profunda ‘especialização’ de se copiar e reproduzir aquilo que já existe.
Se olharmos pela ótica de Frost, perceberemos que o mundo acadêmico pós-moderno, mais perdido do que cego em tiroteio, tem como objetivo o estímulo aos caminhos usuais para a ‘lapidação’ do ser e sua suposta evolução, pois é assim que construímos um mundo melhor. Diga-se de passagem, um mundo saturado de caminhos prontos para o consumo.
É como se dissemos, uns aos outros, através de várias bibliografias: “não seja criativo, alguém já pensou por você e escreveu aqui, nessa página, nesse livro”. Conseqüência: o conhecimento passa a ser simplesmente a citação do que um autor escreveu. Eis uma escolha segura, um caminho usual, já bem trilhado e com profundas marcas de cascos sobre a terra.
Manuel de Barros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro vivo, disse que quando recebe publicações de teses de mestrados sobre ele e sua obra, ao se debruçar numa leitura, passa a conhecer aspectos que até então desconhecia sobre si mesmo. Com a profusão de teses e artigos, o caminho mais usual para se conhecer Manoel de Barros é aquele em que nem ele mesmo se enxerga, mas que será a ‘verdade’ acadêmica sobre ele. Melhor escolher um caminho coberto de folhas, e ainda por se fazer: a leitura do que o poeta escreveu com os próprios punhos.
“...e se fôssemos todos cegos?” Perguntou a si mesmo, nosso mestre maior, José Saramago, quando começou a escrever o Ensaio sobre a Cegueira. Faço aqui um pequeno deslumbre de visão própria: a escrita de Saramago é tão niilista, tão reveladora da hipocrisia humana, que não nos cabe outra escolha senão a de amarmo-nos uns aos outros. Há um fio de esperança em toda aquela escrita desprovida de fé na humanidade. À remoção do veneno atuante sobre o corpo social, — depois de tantas palavras escritas e acusações ácidas feitas pelo mestre —, entenderemos, finalmente, que o Homem sempre quis ser bom. Foi a maneira como escolheu para agir sobre o Mundo que o tornou um ser abjeto e medíocre.
Além de cegos, abjetos e papagaios, somos todos feitos de Carbono.  E o Carbono é pra isso mesmo: passar pra outro o que lhe riscaram na pele. Ou seja: alcançamos o nível das notas fiscais de três vias, em termos de filosofia, literatura, música e derivados. — Abra os olhos e poderemos ir muito além do sentido ontológico de uma nota fiscal. Eu creio nisso.  
Bem, se você não entendeu a crônica, paciência. Fique apenas com a dúvida: agimos sobre o mundo para construí-lo, ou para crescermos como seres supostamente pensantes? Abraços, att., Sávio. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O cristianismo cristão



O Papa Francisco I, a cada declaração que faz, surpreende o mundo, sobretudo os conservadores, a malta, a chamada corte e seus asseclas, que se apossaram da Igreja e a transformaram num Estado totalitário fascista, obcecada pelo aborto, homofóbica, preconceituosa para com a sexualidade e exclusivista. Leonardo Boff chamou a isso de cristianismo pagão, porque remete aos primeiros papas que se comportavam mais como imperadores romanos do que como líderes cristãos.
Foi com papas dessa estirpe, entre eles Leão I, que a Igreja cresceu ao longo desses dois mil anos: força, corrupção, segregação e intolerância foram impostas pelos líderes católicos, ao longo da história do Ocidente. A prática institucional superou a própria teórica cristã de amor ao próximo, solidariedade, aceitação do livre-arbítrio nas questões morais, políticas e sobretudo, nos anseios de liberdade.
Por isso, quando Francisco I diz que “não há um Deus católico, mas sim um Deus universal, ou quando afirma não ter poderes para julgar um gay que procura a Deus, e que também as mães solteiras devem ser recebidas de braços abertos”, — até mesmo as que fizeram aborto — algo de luminoso surge no fim desse túnel assombrado e decadente que é o cristianismo institucional, na pós-modernidade.
De Leão I, no século IV, a João Paulo II, os papas se comportaram como imperadores romanos, ansiosos pelo poder, pela riqueza e praticantes de uma agenda que permitiu o surgimento de ‘facções’ conservadoras e sádicas no seio do cristianismo. São grupos que se especializaram em estimular o masoquismo em seus seguidores, enquanto cresciam política e economicamente. Foi essa Igreja totalitária que permitiu o surgimento da Opus Dei, da Renovação Carismática, a Sociedade São Piu X, Fraternidade de Comunhão-Libertação, Legionários de Cristo, ou seja, um amontoado de soldados conservadores e reacionários, fanáticos por temas que mal conhecem e não dão um passo sem citar Satanás.
Assim, quando Francisco I pergunta a um de seus seguranças, que está em pé a mais de seis horas, se ele não tem lugar para se sentar, e vai ele próprio buscar uma cadeira para um homem, um simples funcionário do Vaticano, até então invisível pelos olhares ‘bondosos’ do cristianismo institucional, e o gesto ganha força nas redes sociais e na própria imprensa tradicional, fica claro o sentimento de que a Igreja vem errando em tempo integral, quando se trata de amar ao próximo. Há mais cristianismo nesse gesto de Francisco I do que em todo pontificado de João Paulo II. — Opinião desse pobre cronista.
Não é à toa que muita gente já se pergunta, e também o faz aqui e acolá, se não vão matar esse papa também, a exemplo do que aconteceu com João Paulo I? Sinceramente, espero que não. Há vários tumores no seio da Igreja que precisam ser extirpados. Não sei se apenas um pontificado seja o suficiente para vencê-los. Ou se quando findada a ‘rádio-químio-terapia’ iniciada por Francisco I, algo de saudável venha a sobrar dessa Igreja que conhecemos. O problema é se constatar que a cura só poderá ser alcançada com o fim da Instituição.  Toda ela, ao longo de todo esse tempo, nada mais foi do que um imenso cancro e seu extermínio imediato, a única maneira de libertar o Cristo da patente farisaica.
Os povos pré-colombianos, que não eram cristãos, já diziam que na vida, às vezes, é preciso destruir para se construir algo de novo sobre os escombros da decadência, da demência, da corrupção, do sadismo, de tudo isso junto que vamos criando, mas que temos de ter a sensibilidade pra jogar fora.  
Que assim seja! Avante, Francisco I.            

                             

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Proficiência displicente



Não, o conceito não é meu, mas de um amigo. Disse-me ele, certa vez, que na vida é preciso se alcançar a eficiência técnica com uma boa dose de displicência. O primeiro displicente-eficiente que me veio à mente foi Cristo, com o milagre inaugural do cristianismo, as bodas de Canaã. A primeira ‘saideira’ da história da humanidade. Esvaziados os tonéis de vinho, bateu desespero nos anfitriões do casamento. O povo ali, querendo brindar, e não havia mais vinho. O bom e velho Rabi estalou os dedos e tudo se resolveu. Pra quem já havia dito, “e faça-se a luz!”, foi mais fácil ainda dizer, “que venha a mim as vinhas do mundo!”, e permitir a consagração da ‘saideira’, nas bodas de Canaã.
Outro displicente genial foi Mané Garrincha, que nunca seguiu esquema tático algum, não se cansava de jogar bola como numa pelada, amava as morenas, tinha belos goles cachaça no currículo e ainda encontrava tempo para suas pescarias. Melhor agenda do que essa, somente nos anos de 1960, na era hippie, onde era melhor viajar pelo mundo e esquecer completamente qualquer tipo de conselho de Instituições burocráticas, em franco acasalamento com conceitos estóicos e semi-fascistas.
  Buda foi outro displicente da eficiência poética, preferiu sentar-se à sombra de uma árvore, às margens de um rio, para encontrar a sabedoria. Pode-se dizer que a sabedoria veio até ele numa balsa, na corda da cítara de um músico que ensinava a um menino, os princípios da música: “...se esticar demais, arrebenta! Se ficar muito frouxa, não produz som algum!”. Era essa a essência da vida, segundo Buda, trilhar pelo caminho do meio, nem tanto ao céu, nem tanto ao chão. Tal como na arte de fazer uma caipirinha: se colocarmos pinga demais, azeda o paladar. O açúcar em excesso desfigura a alma da cana. O limão em demasia deixa o treco ácido. Tem que ser a medida certa, no caminho do meio, com duas pedrinhas de gelo como Avatares de uma transcendência tropical inesquecível; melhor ainda se for à beira-mar. — “...ao sol que arde em Tapuã”!
Ao contrário da proficiência displicente, existe a ‘proficiência ortodoxa’, séria por demais, essencialmente de direita, que é característica de quem não tem criatividade o suficiente e não sabe escolher o que lhe é caro, em detrimento do que é meramente aparente e vazio. O proficiente ortodoxo sempre escolhe errado: prefere as planilhas ao invés dos prazeres da vida. Os nazistas eram proficientes, por isso escolheram a morte e o extermínio, ao invés da beleza da diversidade.
Imagine por um segundo se Hitler tivesse vencido! Parte de seus planos era purificar as ‘raças’. Isso corresponderia no extermínio de judeus, negros, árabes, japoneses, esquimós e até mesmo no fim de todos os brasileiros, mestiços por demais, segundo ‘os cabeças-de-planilha’ nazistas. Dessa forma, seria extinta uma das mais belas obras da evolução da humanidade: a bunda da mulher brasileira. Não consigo imaginar um mundo sem essa obra divina e cara a todos nós. E olha que não falta gente que diga que, “...esse Hitler estava certo, pena que seus planos não se concretizaram!”
Não há outra explicação: “...quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé. ...ou ainda não descobriu o Viagra”.