segunda-feira, 13 de março de 2017

Diálogo sobre a honestidade de um juiz





Imagem: Aristóteles.

Sócrates se encontra com Coxístenes na praça de Atenas
Coxístenes: Caro Sócrates, te encontro num dos grandes momentos de nossa história! A Justiça, podemos dizer, se personifica. Ela vive e fará nosso futuro melhor.
Sócrates: Sua empolgação me alegra, porque sei que isso é fruto de um sentimento cívico que anseia pela ética, caro Coxístenes. Que os deuses o abençoem.
Coxístenes: E não poderia ser de outra forma, caro Sócrates. Moróclides, nosso juiz, anda a conduzir com maestria processos contra forças políticas populares acusadas de corrupção. Forças políticas que já nos governaram. É o tempo do advento profetizado pelos oráculos.
Sócrates: Que assim seja, Coxístenes. Mas se me permite um questionamento, pois se não o fizer não seria eu o Sócrates, a mosca, que todos já conhecem. E eis a questão: ando a perceber que alguns poderosos políticos também têm aplaudido tal juiz. De certa forma, isso me causa estranheza, e até mesmo preocupação, pois o poder em nossa sociedade se alcança, digamos, nem sempre de uma maneira justa. E claro, logo se torna privilégio. Em termos de ética pública, onde há privilégio político há injustiça. Ou estarei errado, caro entusiasta cívico, ao dizer que um grande número de homens injustos e corruptos se regozija com a ação desse juiz?
Coxístenes: Não, Sócrates, parece que não. A bem da verdade nem tinha pensado nisso.
Sócrates: Então, aprofundemos: além dos poderosos políticos que estão a aplaudir o tal  juiz, estão também os poderosos das empresas de comunicação. Acho que concordaria comigo se eu te lembrasse que tais empresas estão longe de um comportamento moral adequado e agem muito mais por interesses econômicos próprios do que pelo bem da ética.
Coxístenes: Iluminado Sócrates, ainda não tinha observado a qualidade moral do salão que anda a aplaudir esse divino juiz! Isso é grave!
Sócrates: Exato. Entre os réus de tão nobre juiz, está Péricles, homem que lutou contra os poderosos ao distribuir terras, reduziu o poder da aristocracia com o voto popular nas assembleias populares, abriu universidades e programas sociais que reduziram a fome e a miséria. Claro, como homem comum, não está acima dessa mesma lei votada nas assembleias. Mas me parece, muito mais por ‘falta de atenção’ do que por uma ‘abjeta intenção política de nosso juiz’, que nosso sistema jurídico age, nesse momento, com exclusiva intenção de penalizar Péricles. Não como cidadão, mas como força política. Assim sendo, pergunto: seria esse o motivo de endeusamento do juiz pelos inimigos políticos de Péricles?
Coxístenes: Agora me sinto confuso. Não sei mais se ainda sei o que é a Justiça!
Sócrates: Sim, também sinto o mesmo. Mas sei que é extremamente injusto determinar que a única possibilidade de se existir, como indivíduo, seja aquela que possibilita o contínuo enriquecimento dos poderosos. O próprio ser no mundo não é o suficiente para se criar uma política de bem estar social. Muito mais que homens corruptos, um sistema injusto é a própria corrupção personificada pelo desmanche do Estado em prol dos negócios que passam a ser feitos de forma privada, onde antes havia atendimento público social.
Coxístenes: Sócrates, será que a História nos perdoará?
Sócrates: Não sei, a História parece ter sido proibida. Mas entendo que fazer justiça não é destruir a capacidade de um cidadão de fazer política. Não estão desejando apenas a prisão de Péricles, mas a destruição de suas idéias que passaram a ser, também, sinônimo de uma política de Estado de bem estar social. Basta ver a reforma da trabalhista aprovada pelos poderosos que dirigem o governo atual. Confirmada, será uma escultura da injustiça.
Coxístenes: E começamos essa discussão com base na suposta imparcialidade de um juiz que nos levaria à uma Justiça maior. Precisamos avisar aos jornais que tal injustiça ocorre em nossa cidade. Ó Sócrates, eles irão nos ouvir a tempo de corrigirmos essa injustiça?
Sócrates: Às vezes a esperança se confunde com a omissão. E assim afundamos ainda mais nas trevas das Cavernas. Mas vá, Coxístenes, só você pode arrumar aquilo que estragou. Adeus amigo, e que os deuses tenham piedade de ti.

Coxístenes: Irei Sócrates, mas por onde devo começar? 
Sócrates: Comece interrogando os 'partidários' de tal juiz se ele, como proprietário de casa própria, recebe do Estado o auxílio moradia. 
Coxístenes: Mas isso seria uma imoralidade, Sócrates. Que moral pode ter um juiz que burla o sistema assim, de forma tão...tão corrupta?
Sócrates: Coloque de novo a panela no fogão, Coxístenes. É pra isso que ela foi feita.