quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Êmile Durkheim escreveu o Coringa!(?)





É normal a gente torcer para os protagonistas no cinema. Há uma cumplicidade, uma transferência, uma simbiose entre espectador e o herói estampado na tela. É fácil de nos vermos no lugar do ator e até numa performance mais entusiasmada e mais viril do que a dele. Essa é a mágica do cinema, a capacidade de nos levar pra fora de nosso tempo e espaço para um lugar imaginário onde as emoções são mais intensas e por que não dizer, mais reais. Como?
Bem, gosto muito da metáfora do filósofo Slavov Zizek sobre a icônica cena da trilogia Matrix, quando Morfeu pergunta a Neo se ele quer tomar a pílula vermelha que o fará ver a realidade, ou a azul, que o manterá imerso nas ilusões da ficção da Matrix?
Zizek afirma que a vida não é assim tão binária, por isso temos que nos ater aos aspectos da realidade que encontramos na ficção, ou seja, quanto é verdade e quanto é mentira na ficção e na realidade que consumimos? É no ponto de equilíbrio entre esses extremos que podemos entender no quê nos transformamos. − Podemos usar essa concepção de Zizek para analisarmos o funk carioca, ou mesmo as canções sertanejas com suas letras de gosto duvidoso: o que é verdade e o que é mentira no teor dessas expressões populares?     
No polêmico filme, Coringa, estrelado por Joaquim Phoenix, nos deparamos com os conceitos de Êmile Durkheim, sociólogo francês do início do século XX, que defendia que o indivíduo era fruto da estrutura social. Mais precisamente, a família, a educação, o trabalho, o Estado, a cultura e a religião formam e constroem esses indivíduos que encontramos ao longo da História.  
Resumindo, não há indivíduos que não foram formados por essas estruturas. Até mesmo os que não têm família e estudo são definidos pela sociedade pela seguinte análise: "aquele não teve família, não teve educação, nem teve uma criação religiosa". Até mesmo o suicídio, para Durkheim, era responsabilidade da sociedade.
Voltando ao filme de Joaquim Phoenix, o incômodo da narrativa se dá pelo fato de torcermos por ele apesar de todos os assassinatos que comete: ele mata três jovens executivos sádicos que o agridem no trem, sua mãe que mentiu pra ele a vida toda, seu colega de trabalho e o apresentador de um programa de talk show que o expôs ao constrangimento.
Aliás, como teve seu tratamento psicológico cancelado por cortes de verbas da prefeitura nos programas sociais e mais a suspensão de seus remédios, o filme lança essa sutil dúvida no ar: com a suspensão dos medicamentos, Arthur Fleck, o Coringa, que trabalhava como palhaço, passou enxergar melhor as coisas e a escolher com mais perspicácia o joio e o trigo à sua volta? Em outras palavras: quem merecia viver ou morrer em sua vida?! 
Antes de matar o apresentador do programa de talk show, personagem vivido por Robert De Niro, o Coringa ainda tenta se justificar, ser ouvido, se esforça em dizer o quanto é degradante ser constrangido e humilhado por uma sociedade que expõe os defeitos dos indivíduos considerados improdutivos e descartáveis. (Os que nasceram com defeito de fábrica).
Em outros termos, a narrativa deixa claro que, a salvaguarda do sistema capitalista se camufla na manutenção desse discurso que a sociedade impinge aos que são considerados perdedores: 'não há nada de errado com o sistema, você é quem não se esforça o suficiente, e, por favor, não me venha com esse discurso de vitimização'. O Coringa, então, diante dessa resposta, atira no apresentador e o faz como se atirasse em toda mídia.
Peço licença para um pequeno grifo sobre o que se convêm chamar de discurso de vitimização. Me parece ser o último fôlego da alteridade que, por ironia desse estranho mundo em que vivemos, se manifesta, quase que exclusivamente, em quem está em seu pior momento na vida: aquele de ter de pedir ajuda a um estranho para continuar a sobreviver. E é nessa hora que o tipo humano chamado de homem comum, ou cristão ocidental, diante de um pedido de piedade destila seu sadismo e seu prazer secreto de ver o próximo se lascar ainda mais com sua negativa. Parece haver um anseio pelo espetáculo do desespero encenado pelo pobre perdedor que o procura em nome da misericórdia e da caridade.    
Mas enfim, a cena do assassinato do personagem de Roberto De Niro, transmitida ao vivo, desencadeia o caos em Gothan City. Surge uma rebeldia generalizada que vai muito além da capacidade das forças de seguranças públicas para conter a convulsão. São milhares de Coringas que despertam movidos pela sanha de destruir o mundo que os fez malditos, desprezíveis e improdutivos.
'Durkheim' parece ter razão: é a sociedade quem cria os indivíduos. E quando ela nega, por meio do Estado, o acesso aos recursos financeiros que viabilizam programas sociais, em nome de uma ideologia econômica que preza pelo desmonte desse mesmo Estado, os Coringas emergem. E ao que parece ela se torna vítima de sua própria negação, ao não estender a mão a quem está imerso no desespero.
Sim, Batman é tão criminoso quanto o Coringa. Mas isso é pra um outro texto.